Antes do Kiss era a carochinha.

Dia 17 próximo vou ver o Kiss. Esses caras mascarados, mostrando a língua e soltando fogo pelas ventas, hipnotizaram-me desde o início. De repente, aqueles disquinhos coloridos de canções infantis e contos da carochinha não faziam mais sentido. O Kiss abriu as portas do Rock & Roll para minha vida. E eu de lá nunca mais saí.

Deu-se tudo por volta de 1982, 1983. Nos meus inocentes dez anos, eu pegava toda minha mirrada grana e a transformava em vinil. Quando a mesada não era suficiente para minha gula musical, deixava de comer o lanche na escola para, com o dinheiro economizado, comprar os discos que queria. Sempre Kiss. Nada mais fazia que não ouvi-los e imitá-los diante o espelho, mostrando a língua e pulando feito um pequeno maníaco.

Foi quando meu pai resolveu botar ordem naquela zorra toda. Primeiro, tentou proibir que eu comprasse LPs pois preocupava-se com minha absoluta fissura por aquilo. Da noite para o dia, seu filho havia se tornado um junkie do rock. A proibição não surtiu lá muitos efeitos. Eu comprava discos escondidos e, aquela altura, já emprestava LPs de coleguinhas do mal para gravá-los em fitas Basf laranjas e pretas para ouvi-las em meu gravador Seiko. Wandão, que de bobo não tem nada, percebeu o tráfico musical ao qual o filho se submetia e propôs um acordo. Entrou no meu quarto enquanto eu mostrava a língua em frente ao espelho, pegou-me pelo braço e me levou até o escritoriozinho da casa, apontou para os livros da prateleira e soltou a proposta:

-A cada três livros que você ler, eu lhe compro um disco. Você não precisa gastar sua mesada neles ou tirar seus vinis do dinheiro do lanche. Leia três livros, entregue-me o resumo de cada um e, após eu lê-los e ter certeza que você de fato leu e entendeu a obra, eu compro o LP que você quiser.

Foi assim que acabei tendo todos os discos do Kiss, depois do Iron Maiden e por aí vai. Mas não foi só. Eu também peguei gosto pela leitura. Depois de fazer um sem número de resumos que me renderam uma boa coleção de LPs, passei a ler por ler. Lia, nada resumia e tudo bem. Não demorou para que eu passasse a dividir minha grana entre os discos e os livros. Foi assim que a leitura entrou na minha vida e até hoje é nela companheira do Rock & Roll.

Hoje ouço muito mais coisas que o Kiss (inclusive coisas que não são rock) e há bandas, não poucas, que prefiro a esses ianques que, reza a lenda, copiaram os Secos e Molhados em sua caracterização teatral. Há quem diga que há muito tempo eles estão acabados e que tudo o que fazem é querer ganhar uns trocados a mais. Afinal, o tempo não tem misericórdia e, mais cedo o mais tarde, pesa sobre as costas e vinca em rugas fatais a face de todos nós. Inclusive daqueles mascarados mágicos e linguarudos que viveram pendurados no meu quarto por boa parte de minha infância e adolescência.

Ora, que se foda. Ainda hoje, eles são meus super-heróis   preferidos e me trazem uma sensação especialíssima quando os vejo mostrar a língua, cuspir fogo e sangue e botar as guitarras pra voar ao som de Rock & Roll All Night.

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2 pensamentos sobre “Antes do Kiss era a carochinha.

  1. Incrível esse texto, e se me permite opinar, o verdadeiro super herói da sua história é o Wandão, gostaria que os pais desta geração tivessem a mesma atitude com seus filhos, assim teríamos mais pessoas como você. Beijo

  2. Concordo em parte com o comentário da digníssima Márcia, afinal mais pessoas como você seria o caos, quem merece?
    Yeahhh!

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