Sem medo do sol.

A morte do Sangue não me sai da cabeça. E nem éramos amigos. Jamais liguei pra ele ou ele pra mim. Nunca combinamos uma cerveja. As que tomamos foi em função dos outros. Outras, pra ser exato. Nos conhecemos por termos amigas em comum e assim nos falamos em alguns churrascos, tardes e aniversários alheios, sempre a mercê do que elas planejavam fazer. Era bom encontra-lo. Não éramos íntimos, amigos, companheiros. Nunca tivemos uma história pra contar e jamais combinamos algo, salvo um salto que eu não dei por um texto que lhe fiz.

O que me perturba é o tanto que ele vem me preenchendo os pensamentos. Nunca, como disse, fomos amigos e assim, seria normal sentir uma tristeza momentânea pela falta dum conhecido, um choque pelo jovem falecimento e boa. Toca o barco. Mas é difícil pensar em outra coisa desde que soube de sua morte inexplicável. E assim será, mesmo depois que os fatos e fotos e filmes e acareações forem apuradas. Há coisas que não se explicam. “Um escorregão idiota num dia de sol, a cabeça no meio fio”. Essa música nunca fez tanto sentido como agora. E eu nem sei se o Sangue curtia Raul.

Sangue era um cara que voava e vivia pra isso e de repente não vive mais. Eu não sei pra que eu vivo e estou aqui. Sinto-me tão impotente, tão fraco, tão sem sentido com esses livros e esses planos futuros e economias que faço pra que os dias passem bem, mesmo que apertados, construindo uma espécie de garantia para os momentos de dificuldade. Sinto-me um trapezista que se arrisca em manobras ensaiadas, sempre protegido por uma rede. Sinto-me um chato de galochas.

Acho que é isso que me perturba: a busca por um sentido para essa morte idiota. E pela falta de uma boa explicação, fico com aquela que há muito ouço de todas as bocas, sinceras ou não, e que encontra agora, de novo, eco em meu espírito: quando achar que é a hora, não vacile malandragem: se jogue! Pois do nada você pode tropeçar e meter a cabeça no meio fio, sem ter tomado aquela dose de uísque naquele bar, naquela tarde cheia de trabalho chato e de chuva fina. Ou, se você voar como o Sangue voava, pode tomar uma asa de avião na cabeça em feriado de céu azul, deixando no ar milhões de saltos por fazer.

Então ficamos assim, meu bom: é preciso ter coragem todos os dias pra ser livre para viver mais, amar mais, construir mais com medos de menos.

É preciso voar. Voar mais alto que Ícaro.

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