O Judas que não trai e a besta assombrada.

Impregnado por um Nelson Rodrigues que ocupou-me boa parte do domingo e ainda agora se mete em meus pensamentos escrevo com uma ponta de inveja do soberbo pernambucano radicado no Rio por saber que jamais escreverei como ele. Tricolor até a medula, Nelson tinha nas palavras a perfeita direção de um atirador de elite de filmes de 007 ou Jason Bourne. Nunca terei mira tão apurada. Você que só conhece Nelson das bonitinhas produções globais, das ordinárias pornochanchadas dos anos 70 e 80 ou das citações habilitadas em seu Facebook, faça um favor a si mesmo (ou mesma, visto que Nelson deve ser lido pelas mulheres, principalmente as que não gostam de apanhar): vá conhecê-lo do jeito certo, verdadeiro, inexpugnável. Leia um livro dele. Um livro.

Mas amigos, amigas, quando meti o dedo no ON de minha máquina aqui toda estilosa com uma maçã estampada em sua traseira, ao mesmo tempo em que os outros dedos impacientes já se agitavam sobre o teclado encardido, eu não tinha a intenção de falar-lhes sobre o domingo mas sim sobre sua véspera noturna e afortunadamente sem chuva pois, esta sim, me mostrou algo inédito, coisa que jamais vi ou ouvi ou melhor dizendo, senti: o estado bruto, absolutamente primitivo de uma coisa.

Antes, uma breve introdução. Certa vez, um amigo me contou uma viagem que fez à Patagônia. De toda a aventura, ele se atinha ao momento em que desceu do barco que o levava num passeio entre as geleiras, foi até uma delas e arrancou-lhe uma pedra de gelo, colocando-a no copo e lhe aplicando uma merecida dose de  blue label que era pra combinar com o clima local e com a cor das montanhes gélidas do fim do mundo. Esse meu amigo, é bom que se diga, faz questão de que tudo esteja certo, em perfeita sintonia. Além de ser muito rico.

Pois bem, como disse, ele passou mais de uma hora contando essa ocasião, a do uísque tomado com o mais puro gelo da América. Pois digam-me: por mais que ele tenha tentado prolongar o momento em goles minúsculos, quanto tempo ele levou? Um minuto? Dez? Que seja meia hora, exageremos. E foi isso, exatamente esse breve período que  meu amigo narrava empolgado, ignorando todos os outros quase vinte dias que passara viajando pela Argentina e Chile. Confesso: achei-o uma besta.

Sim, uma besta. Numa viagem de tamanha amplitude geográfica não seria possível que nada mais teria valido a pena, ao menos para que figurasse em meio suas narrativas. Eu perguntava: e Bariloche? E Mendonza? E Santiago? E os Andes? E os vinhos? E o tango? E o Maradona? E ele respondia com indisfarçável indiferença: “batutinha”.

Volto a minha humilde persona e ao sábado passado, antes de ontem, quando fui ao show do Judas Priest. Notem: não sou marinheiro de primeira viagem. Já vi sei lá quantos shows com bandas de todos os tamanhos, do humilde Culto Metálico no salão de festas do Instituto de Jaú ao terafuck Iron Maiden no Morumbi. Mas nada foi como sábado, com o Judas, quando tive a experiência  de presenciar algo espetacularmente não misturado a nada numa época em que o grande lance é absorver tendências e miscingenar tudo o que for possível. Aquilo que vi foi o Heavy Metal em sua mais primitiva forma.

O som rápido, as guitarras em V, as roupas de couro pretas e repletas de tachinhas, a bateria com dois bumbos, a voz estridente em gritos profundos e os jatos de fogo que volta e meia jorravam dos cantos do palco não eram novidade aos meus olhos. Mas ali, combinados nas mãos desses ingleses da pesada, ganhavam uma outra dimensão. Ele não foi o melhor show que já vi  e tampouco Judas Priest é meu som preferido. Mas esses coroas me mostraram algo em estado bruto, absolutamente imaculado. Eu nunca havia tido esse tipo de sensação. Na verdade a tive no domingo pós show, ainda com a boca amarrada pelos exageros típicos de uma noite de rock, assim que abri os olhos e os estatelei no teto. Pensei com ares de filósofo modernista ressacado: taqueopariu, que parada véio!

Se um dia, quando velho e curvado estiver em minha cadeira de balanço ouvindo um bom vinil dos anos 70 e um jovem me perguntar sobre os shows que vi em minha época de fartas doses e tragadas inflamadas, falarei deste. Passarei rapidamente por Iron Maiden, Metallica, AC/DC, Motorhead, Kiss ou mesmo do grande e insuperável Ozzy Osbourne para finalmente chegar ao show do Judas Priest onde passarei um bom e saudoso tempo, buscando em cada palavra, quem sabe, o gosto de uma vida bem vivida.

É gente boa: eu também sou uma besta. Uma profunda e irreparável besta.

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3 pensamentos sobre “O Judas que não trai e a besta assombrada.

  1. Fala Alexei, aqui é o Rubens, redator que trampou com você na Sun, lembra? Passou no concurso ou ainda não? Eu estou na Repense e rabalho com o Eduardo Pozzi (e com a Paula Peres que você conhece tão bem, rs). Mande notícias, velhinho.
    Abs

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