Crime e Castigo.

De todas as tragédias nacionais, nenhuma é tão expressiva quanto o Maracanazo de 50. Naquela tarde de 16 de julho o brasileiro foi uníssono na tristeza. A unanimidade, tão clara e presente num Maracanã ensolarado com gente pendurada até no lustre, não era burra, Nelson: era triste. Tristíssima.

Desde então o brasileiro não quer saber de competir: o que importa é ganhar.

Depois de Gigghia e seu fatídico gol, ganhamos cinco Copas do Mundo, fomos o berço dos maiores craques do planeta e nos tornamos o país do futebol. Mas aquela derrota nos espia. Ainda hoje podemos sentir seu cheiro, ouvi-la rir de nossas esperanças. Desde aquele Brasil e Uruguai, desconfiamos das vitórias.

Tentamos enterrar tudo aquilo que nos lembrasse aquela tarde no Rio de Janeiro. Nunca mais usamos camisas brancas e exilamos em sua própria pátria os jogadores daquele escrete. Não interessa a campanha avassaladora que fizeram nem todos os momentos de alegria que aquela seleção nos proporcionou. Por que nos fizeram acreditar que era possível? Por que nenhum poeta nos avisou que sempre a felicidade tem um fim? Em único gol, as Touradas de Madri, cantadas às gargalhadas nos 6 a 1 contra a Espanha três dias antes da finalíssima, tornaram-se uma embolorada lembrança esquecida numa gaveta qualquer, como um emplasto de Brás Cubas.

O medo permanece à espreita e creio que foi ele quem nos fez os maiores do mundo. Perder não nos traz qualquer lição. A derrota é simplesmente um fardo muito pesado de se carregar. Nada mais. E para um povo acostumado a feriados e gargalhadas, perder festas e comemorações é o pior dos castigos.
Foi este o crime atribuído a Barbosa, Bigode, Juvenal e companhia: perder a Copa do Mundo em casa nos tirou a maior festa de todos os tempos.

Não há crime mais cruel de se cometer no Brasil. Como a tristeza do poetinha, a pena não tem fim.

Escrito em 15 de julho de 2003.

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4 pensamentos sobre “Crime e Castigo.

  1. Putz! Nem bem o Armando Nogueira morreu e o cara já reencarnou…
    Mermão, pára com essa coisa de “sentimento nacional” e “tristeza da nação”.
    A onda agora é “a paixão clubística”

    E namorar pelado…como diz o clássico do cancioneiro nacional…

  2. Sei que não terei argumentos para tal, mas tenho que corrigir o nobre colega, paixão clubística e namorar pelado SEMPRE estiveram na onda!
    Agora com relação ao Armando, apoio total! mesmo porque eles tem algo fortíssimo em comum … ambos alimentam ou alimentavam uma paixão louca por clubes pra lá de chinfrim!!!!
    E para constar nos anais, ao redigir esse monte de besteira, algo realmente importante para a humanida de acontece: GOLLLLL !!!! CHICÃOOOOOO !!! ÉÉÉÉ do CORINTHIANS !!!!!

  3. Muito bacana !
    Já falei que adoro lê-lo ? Já ? Sem problema, sou dada (?), em algumas situações, a repetições.
    Beijo e progressão de regime.

  4. “Não gostei de ver aqueles 200 mil torcedores tristes; não gostei de ver o Rio às escuras e sem carnaval. É a vida. Era campeão e não sentia uma total alegria pelo feito”

    Obdulio Varela, capitão da seleção do Uruguai em 1950

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