Arquivo da categoria ‘Virado’

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Todo mundo está feliz aqui na Terra.

8 maio, 2009

Saiu a autorização para a prova da Receita Federal. Pelas minhas contas, o concurso vai rolar no final do ano, coisa de começo de novembro. Demora, né? Mas é assim mesmo: sai a autorização, depois de uns meses sai o edital e então, coisa algumas semanas, a prova. Abro o calendário e circulo o primeiro fim de semana de novembro. Esquematizo meus estudos, monto novos horários com uma carga pesada de Contabilidade e Direito Tributário, matérias que me assombram há três longos anos e divido o restante do tempo pelas outras 10 matérias que costumam cair nessa avaliação. Divido-as em tópicos, estabeleço metas mensais de estudo, penduro na cortiça o cronograma de Maio ao lado do último edital, dou uma última encarada no calendário e abro uma cerveja. Espreguiço-me antes de vestir uma bermuda e calçar um tênis confortável. Pego um moletom pois a noite promete ser fria, acendo um cigarro, mato a Skol e me mando pro centro da cidade para mais 24 incríveis horas da Virada Cultural.

Taí a balada perfeita pra mim. Já falei disso, né? A ocupação absoluta do espaço público pela população que busca diversão, cultura, entretenimento ou um simples motivo pra tomar umas, encontrar outras embaladas por toda espécie de trilha sonora e sob a benção de inúmeros espetáculos comandados por artistas gringos ou tupiniquins que dividem as ruas, becos, viadutos e paredões do centro sagrado de Sampa com pessoas comuns como eu ou você. Se você olhar bem nos olhos da Virada Cultural, o Centrão é o mesmo. Lá está todo mundo: o Theatro Municipal, o Viaduto do Chá, o Largo de Santa Ifigênia, a Ipiranga com a São João, a Praça da República. Todos daquele jeitão de centro, manja? Estão, como sempre, repletos de figuras, de vida, de histórias e de acontecimentos prontos para rolarem. Só que na Virada, eles se vestem de gala pra receber todos que ali chegam para a mais pura curtição. Qual é a sua, meu chapa? Rock? Brega? Samba? Teatro? Cinema? Dança? Andar sem rumo certo? Ou tudo ao mesmo tempo agora? Seja bem vindo amigo, fique a vontade menina. Sinta-se no centro do mundo e descubra que São Paulo é algo bem mais legal e mais significante em sua vida que as baladas nos Jardins, os bares da Vila Madalena, o samba da Casa Verde, a periferia do Capão Redondo ou as mansões do Morumbi. Dá uma boa olhada e curta o que puder pois no Centrão rapaziada, São Paulo é infinita.

São São Paulo, meu amor.

Perdi o show do Tom Zé no Municipal. Mas achei uma Raulzera violentíssima à sombra do relógio da Luz, uma Camisa de Vênus pra lá de surrada no fim da República, bombeiros frenéticos tocando fogo na pista em frente à Bolsa de Valores, um cara tocando Hendrix numa sitar indiana, Velhas Virgens bombando putarias. um cara dançando suavemente com uma escavadeira no meio do Anhangabaú e o Reginaldo Rossi rogando praga no Curintia em cima de uma plantação de abacaxi em pleno Largo do Arouche.

Parece lisérgico, mas é de verdade. É a Virada Cultural.

E pronto. Tô renovado para a esticada fatal até aquele fim de semana de novembro, já circulado em meu calendário.

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Paulicéia Desvairada e meu recreio revelador.

29 abril, 2008

Embora hoje estude muito, nunca fui bom no colégio. Sempre procurei as carteiras próximas da janela para que pudesse me distrair durante as aulas. O mundo todo acontecia lá fora enquanto alguém falava coisas que eu não queria ouvir e enchia a lousa de fatos que não me inspiravam. Na escola, a única coisa que me atraía era o recreio. Estudar sempre foi um martírio e eu jamais me esforcei pra aprender qualquer coisa.

É muita sorte eu não ser corinthiano.

Nesse fim de semana não fui pra aula. Pulei a janela e fiquei o tempo todo no recreio. Um recreio incrível, que passei me divertindo com amigos e amigas e mais umas 4 milhões de pessoas, segundo o que acabou de me contar um telejornal. Mas foi um recreio diferente dos de minha infância: teve um bocado de cerveja, algumas doses de uísque e otras cositas mas; teve samba, sambalanço, samba-rock e pagode de responsa; teve black music, eletrônico no caminho do velho e bom Rock and Roll que me levou de volta aos primeiros acordes elétricos de minha vida, com Paul Di’anno do início da madrugada e Ultraje a Rigor no final da tarde, invadindo a nossa praia sem óleo nem creme  e trazendo a farofa e a galinha junto da vitrolinha(música que, como bem diz um amigo, lembra a Payboy da Magda Cotrofe). Teve encontros e desencontros em meio artistas suspensos no ar, uma exposição de estátuas vivas, palhaços em pernas de pau, banda com uns caras azuis, uma bicicleta que voava entre os prédios e sei lá mais quantas coisas legais que encheram meu fim de semana de uma sensação deliciosa, profunda, absoluta. Rapaz, que recreio!

A Virada Cultural é um evento incrível e inimaginável para quem se mantém preso a certas crenças modernas-urbanas, seja a grã-fina que vive atrás dos muros de seu condomínio de luxo e julga ser impossível ter um evento gratuito que possa ser “bem frequentado”, aos radicais da periferia, que não podem se imaginar dividindo o mesmo espaço com o povo branco dos Jardins. A Virada coloca todo mundo junto, cada um na sua, mas todos incrivelmente juntos. De alguma forma, todas as 4 milhões de pessoas que circularam pelo centrão da Paulicéia nesse fim de semana estavam na mesma onda, curtindo as atrações numa boa, sem pressa ou atropelos, todos felizes. Vai ver que a Virada é isso mesmo: um palco pra que a gente atue numa vida que queremos de fato ter e que ainda pode ser, na qual somos civilizados, educados, fraternos e capazes de nos emocionar mesmo no duro concreto de nosso dia-a-dia.

No começo do fim da noite de domingo, devorando um Bauru no Ponto Chic do Largo Paissandu e arrematando as últimas canecas de chope do fim de semana com dois irmãos camaradas, enquanto o palco da capoeira em frente a Galeria do Rock era definitivamente desmontado, tive a certeza incontestável de que a Virada Cultural está incorporada ao nosso calendário. Graças a Deus, né? E, brasileiro que é, Ele contou com uma forcinha da rapaziada que organizou o evento, trabalhando sem descanso e com rara competência, sempre com o único, claro e transparente objetivo de fazer a Virada Cultural que todos querem: legal pra caralho! Simples assim. E quem esteve na festa, é testemunha de que eles conseguiram.

Meu livro de tributário que dorme na mesa desde a sexta a noite começa a acordar. O sinal acabou de bater e me trouxe uma última divagação de fim de intervalo, de fim de festa, de fim da Virada deste ano. Minto: são duas últimas conclusões. A primeira é que Sampa é um vulcão incandescente que vai além do caldeirão cultural propagado por todos, chegando as profundezas de cada um de nós, paulistanos da gema ou de coração, que temos a necessidade latente da diversidade cultural e da convivência harmoniosa pra que possamos conviver com nossas diferenças, resolvendo-as numa conversa, numa troca de idéias (que no final das contas, ainda é o que de melhor sabemos fazer).

A segunda é que eu estava certo quando me sentava na janela e aguardava ansiosamente o intervalo das aulas. Eu sempre soube que são nos recreios que tomamos as grandes lições da vida.

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Virado.

7 maio, 2007

No Viaduto do Chá eu via uma apresentação indígena que acontecia lá embaixo, no Vale do Anhangabaú. Eram pouco mais de 9 de uma manhã esplendorosa de domingo. Além de mim, haviam mais algumas dezenas de cara-pálidas acompanhando o vai e vem, agacha e levanta, “u-u-u” e”tum-tum-tum” daquela tribo que tentava contar um pouco de sua história. Achei aquilo tudo bem triste e comecei a pensar na desgraça indígena e em sua aniquilação cultural. Aquele palco, aquela apresentação me soou como uma esmola antropológica que, no final das contas, nada…

-Ah bicho, pára com isso! Desencosta desse parapeito, tira a mão do queixo, desfaz essa cara de conteúdo e abre uma cerveja!

Então tá. Pedi pro sociólogo chato que começava a se manifestar em meu peito ir dar uma olhada em como estava a Praça da Sé depois dos Racionais e passei a ver a questão sobre um outro ponto de vista. Foi quando viajei no Chá.

Imaginei o que seria aquilo tudo há uns 500 anos, com o rio Anhangabaú cortando aquele verde vale. Vi que uns índios cantavam e dançavam na margem direita do rio sem perceberem que, em umas dezenas de canoas, outra tribo se aproximava furtivamente com seus arcos, flechas e lanças. Antes da briga começar, interrompi a viagem quando dois Pterodátilos passaram dando um rasante sobre o campo de batalha e lá no fundo, um vulcão entrava em erupção.

Era muito passado pras 9 da manhã.

Aquela regressão me deixou meio zonzo e, assim que os prédios voltaram, eu me mandei. O que passou, passou, não é isso? Vamos nessa, andando pra frente, olhando pro lado, com fé no futuro e as convicções firmes e fincadas no presente. O futuro se constrói agora e naquele momento eu sabia o que queria, sabia do que precisava pra fazer minha vida seguir e a alegria permanecer em meu peito. Minhas certezas eram fortes e tão claras quanto o dia que se iniciava: eu precisava tomar uma água e descolar um óculos escuro.

Fui encontrá-los alguns minutos no futuro, lá na Rua Direita, em meio uma tecneira nervosa que me engendrei rapidamente com ares de um Fred Aistare cibernético. Ganhei um óculos, comprei uma água e passei mais um bom tempo inventando coreografias absurdas, sendo assessorado pela bela doida dona dos óculos.

O futuro nos reserva cada uma, né não?

Cheguei em casa na hora do almoço. Comi um lanche, assisti um pedaço do Didi Mocó, tomei mais água, passei os olhos sobre o Código Civil que estava no banheiro sem nem pensar em abri-lo àquela hora e me estiquei na cama com duas certezas fatais: uma é que a Virada Cultural era passado, que o futuro era de estudo e que o melhor de todas as festas, em qualquer tempo, são os amigos.

E, se forem os meus, é um espetáculo pra se assistir de camarote, no Teatro Municipal, depois de uma noite inteirinha se divertindo num puteiro.

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