Arquivo da categoria ‘Rapa’

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Kill Beer 2.

15 maio, 2009

“E no brinde fatal, o copo se quebra em seiscentos e sessenta e seis pedaços, num prenúncio da loucura. Insanos, eles invocam as forças ensurdecedoras dos vocais guturais e dos solos de guitarra infernais. Silenciam as harpas celestiais, calam-se os querubins e o rufar infernal dos tambores transborda em suas mentes. Soam as cornetas apocalípticas das profundezas do barril quase vazio. Segura a peruca, malandro: as bestas estão à solta.”
Revelations, Ch. XIII, v.17

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Do porquê que as amizades antigas são mais sábias e duradouras (ou Kill Beer).

14 maio, 2009

Aconteceu há algumas semanas. A noite era gostosa quando a rodada do futebol acabou. Veio um filme, outro, uma rápida leitura num capítulo sobre Bens Públicos e nada do sono chegar. Corro à internet e abro meus e-mails com a certeza de que nada haveria de novo.
Eu estava errado.
Dois novos e-mails de uma mesma pessoa, Jair, um concurseiro que conheci há alguns meses num curso de Contabilidade Avançada. Jair é engenheiro mecatrônico, vai vendo. Cabeçudíssimo.
Posso dizer que Jair é um amigo que tenho no mundão. Sempre solícito, sempre disposto a ajudar, Jair é um autêntico exemplar do ser humano gente boa. Tudo bem que ele não fala de futebol nos intervalos e talvez nem torça para algum time, mas é gente boa. Ele também está sempre por dentro das últimas do mundão. Antes de sair a autorização para Receita Federal, por exemplo, ele já especulava sobre o assunto. Lembro-me que eu tomava café no corredor do curso num intervalo da aula, apreciando uma bela bunda que tomava água no bebedouro, quando Jair passou por mim e cravou:
-Da semana que vem essa autorização não passa.
Se foi chute, cálculo científico ou informação de fonte segura eu não sei. Sei que Jair acertou na mosca e nem percebeu a bunda que passou rapidamente por nós, indo se sentar nas primeiras fileiras da classe amontoada de carteiras. Desde então tenho Jair como alguém a ser ouvido com atenção, merecedor de nosso zelo e admiração, embora seja um pouco distraído.

Depois dessa breve apresentação, vamos abrir os tais e-mails enviados pelo Jair no meio da madrugada. Eram, como já disse, dois: um trazia um esqueminha da nova classificação das contas no Balanço Patrimonial imposta pela Medida Provisória 448 e que, segundo o texto introdutório da mensagem, facilitaria na decoreba do assunto. O e-mail também trazia uma série de questões não resolvidas. Em cada uma, Jair levantava dúvidas e pedia a colaboração dos amigos na solução dos problemas. No outro, numa astuta interface com a realidade, provando que Jair também tinha olhos para o cotidiano do país que um dia sonha servir, trazia uma indagação: e se José Alencar subir, quem assumirá o cargo de Vice-Presidente da República?
Claro que Jair não usou o termo “subir”. Escreveu “falecer”. Mas o fato é que na hora, sem saber ao certo a resposta, fui obrigado a consultar a Constituição pra ter certeza da resposta – ninguém assume. Aliás, Vice não presta pra nada. Mas esse papo fica pra outro Fragmento. Neste, tenho exercícios de Contabilidade pra resolver, o que não chega a acontecer pois o sono chegou logo na leitura do primeiro enunciado. Morfeu não suporta números e tributos de forma que não pude, ao menos num primeiro momento, ajudar Jair com seus problemas contábeis.

Alguns dias depois, chega o fim de semana. Esse sem aula e com sol. O tricolor não jogava de modo que assistia a uma peleja alheia na casa de um amigo. Toca o telefone, ele atende, conversa e o passa pra mim:
-Pra mim?
-É o Maurício.
-Fala bicho. Qualé a boa?
-Meu velho, tô com um problemão pra resolver e acho que não vou dar conta dele sozinho.
-Manda.
-Eu tenho 20 litros de chope aqui em casa que sobrou do aniversário da Não Me Lembro O Nome Da Garota e preciso acabar com eles. Devolver barril cheio é falta de caráter. Posso contar com você?
Antes que ele colocasse o fone do gancho, eu já estava em seu quintal. Se um amigo está em apuros, não sou eu quem o deixarei na mão. E juntos, com mais outros dois parceiros, chegamos a resolução fatal. Mas antes que ela chegasse, enxuta e divertida, surgiu a dúvida:
-Porque a Ambev não manda chope encanado para as residências? A gente pagaria a conta da Ambev, da mesma forma que pagamos as contas da luz, do telefone, do gás. E teríamos chope ali, na torneira da cozinha. Uma pra chope escuro e outra pra chope claro. A gente podia entrar em planos de “porçãozinhas” e de “litragem”. Tipo: bebe tantos litros por dia e ganha porções de provolone à milanesa por um mês. Diz aí Alexei, você que estuda esses troços todos: não poderia rolar um imposto da Ambev para o chope canalizado?
Claro que ele não falou Alexei. Chamou-me pelo apelido que me chama há, sei lá, uns 15 anos. E eu, diante tamanha genialidade, só pude suspirar, maravilhado, uma resposta:

-Imposto não, Maurício. Taxa.

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Se o Barack é bom o chope é Obama.

20 janeiro, 2009

Hoje um camarada me liga e lança essa:
-Meu velho, você precisa me explicar uns troços sobre esse papo de crédito e débito do ICMS.
-Não-cumulatividade, é isso?
-Cumé?

Falei pra ele que manjava um pouco. Na verdade, estou começando a me aprofundar na legislação do ICMS-SP, visto que há uma prova pra fiscal de tal tributo despontando no horizonte paulista. Mas não consegui sanar a dúvida do amigo.

-Puta merda, mas você não sabe porra nenhuma, hein meu?
-E você não tem contador não, negão?

Meu amigo é negro. Queria dizer crioulo, que é como o chamo na maioria das vezes, mas vou de negro pra me garantir em liberdade. Vai que me acusem de racista. Crime inafiançável, bicho. E olha que sou amigo do crio… digo, do negro há anos. Quer saber: pra me garantir, vou de afro-americano. Afro, católico, folgado, corinthiano, confiante no gordo papa-traveco e naquele instante, aflito:

-O contador tá viajando e eu não consigo falar com ele.
-Porra meu velho, não dá pra eu te ajudar. Isso que você quer saber é muito específico. Tem que ser com contador. Ou com fiscal. Você conhece algum fiscal do ICMS?
-O Né!
-O Né é fiscal do ISS.
-Puta que pariu! É cada amigo que eu arrumo, vou te contar!
-Porra afrão, te vira meu velho.
-Tô tentando, porra.
-Tá é o cacete! O Barack é presidente da América, o Hamilton é campeão de fórmula 1, o Tiger apavora no golf e você é que tá se virando? Qualé, afrão?! Vai ficar nessa de arrumar carro e ter problema com a não-cumulatividade do ICMS até quando, meu? Chegou tua vez, meu chapa! Se adianta, porra!
Ele mandou-me tomar no redondo e disse-me exaltado:
-E tu tá precisando é estudar mais, sua besta!

Agora, estudar só depois da posse.
Vai que o mundo melhora, né não?
Mas fica esperto, seu Barack: na prática a teoria é outra.

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Pecado.

11 outubro, 2007

Um amigo, servidor público, disse-me em meio uma conversa, uma porção de tremoço e algumas ampolas geladas que já não se lembrava de nada sobre algumas matérias que tanto havia estudado enquanto concurseiro.

-Contabilidade, por exemplo, não me lembro picas.

Rapaz, que inveja.

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O “p” não é meu.

9 março, 2007

Não sei bem em qual dos mistérios de Agatha Christie que me envolvi na adolescência, havia na cena do crime um bilhete supostamente escrito pelo próprio assassino. A polícia pegou o manuscrito, listou alguns suspeitos, comparou suas caligrafias com os garranchos do tal bilhete e vo-a-lá: encontraram o assassino. Então, Hercule Poirot contrariou o óbvio e apontou uma senhora, até então insuspeitíssima, como assassina.
-Mas por quê?, perguntaram todos.
-Simples, disse o perspicaz detetive belga enquanto cofiava as pontas de seu bigode: o seu suspeito escreve o P maísculo desta forma e aqui, está escrito de outro jeito. É muito difícil alguém ter duas caligrafias para a mesma letra.
Todos os queixos caíram e ele acusou a bondosa velhinha que, além de assassina, mostrou-se uma péssima falsificadora.

De todos os livros de Agatha Christie que li, este foi o único cujo desfecho não me convenceu e o motivo é simples: eu tenho duas grafias para várias letras. Jota, agá, a, eme, ene, érre e mais algumas, inclusive o pê. Eu escrevo o pê assim hoje, assado amanhã e nunca matei ninguém.

Não sei bem porque essa história entrou na conversa que tive com um amigo enquanto tomávamos um café na padoca do japonês, numa breve visita que o figura me fez por estes dias. Mas o fato é que entrou, foi se espalhando e quando percebi, ela estava sentadona no sorriso desconfiado do meu amigo.
-Você, hein?
-Cuma?
-Com toda essa cultura, quando estiver no governo, você vai fazer a festa, hein?
Puxou o guardanapo e tirou do bigode por fazer alguns farelos de pão:
-Esse despiste é bom, mano. Muito bom.
Acendeu um cigarro:
-Muito bom mesmo.
-Cuma?
-Vais falsificar altos documentos, hein malandro? Arrumar notas frias… viche! Tô até vendo…
Deu-me dois ou três tapas nas costas e concluiu:
-Você vai longe, malandro.
Rimos e assim, falando groselhas desse tipo, chegamos ao caixa onde o japonês, sempre sorridente, aguardava nosso dinheiro.
-Paga a conta aqui que eu não conto nada pra ninguém, disse meu amigo.
-Cuma?
-Não se finge de besta que você me entendeu.

Eu nem aprendi contabilidade direito e já tem neguinho querendo tirar casquinha.

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Reticências.

12 dezembro, 2006

Dezembro.
Fim de ano.
Festas.
Horário de verão.
Botequins cheios.
Luz do sol do fim da tarde.
Chopes com dois ou três dedos de colarinho.
Luz dos pica-piscas no cair da noite.
Festas.
Encontros.
Reencontros.
Cervejinha sem compromisso.
Porçãozinhas mil.
Amigo Secreto da firma.
Mais uma, Chefia.
Ensaios das Escolas de Samba.
Pagodinho de leve.
Rock & Roll da pesada.
É claro que eu tô afim.
Prova do líder na Aspicuelta.
Sol.
Chuva.
Casam-se as viúvas!
Tá bom pra tomar uminha hoje, né?
Pra quem é chegado, negar não é mole.
Probleminhas pra resolver.
Barzinho novo.
Surpresas.
Amigos sedentos.
Amigas danadas.
Desce mais uma.
Tum-tum-tum!
Você viu como ela tá boa?
Tá sozinha?
Não me diga!
Um brinde.
Não viu? Tá no You Tube.
Manda pra mim?
Manda mais uma, então.
E salve o tricolor paulista!
Chama o Ceará.
Pastelzinhos? Porção mista.
Fecha pra mim, Grande?
Eu não gosto de acabar em par.
E eu não curto ímpar.
Então desce mais uma que eu só paro quando os pingüins se beijarem.
Sabe a diferença do poste, da mulher e do bambu?
E o bolinho de arroz?
Vamos pro São Cristóvão.
Mais uma rodada.
Fica mais um pouco, pô?
Tirar água do joelho.
Mas essa menina tá bem gostosa, hein?
Táqueopa, que delícia de cerveja!
E os estudos, a quantas andam?

Ai.
Sem saidera.
Até a próxima…

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Esperança eleitoral.

29 setembro, 2006

Domingo, pela primeira vez, trabalharei para o Estado. Serei segundo mesário na eleição e não caibo em mim de tanta alegria. Falava com um amigo sobre esta minha euforia e o quanto não via a hora do domingão chegar quando ele, após matar o seu café e dar a derradeira mordida em seu pão na chapa, virou-se pra mim e, incisivo como um candidato do PRONA, profeciou:
-Cara, a primeira mesária vai ser uma gata.
Cofiei a barba extinta e ele foi além:
-Uma baita gostosa. Dessas de babar, sabe? Você vai ver.

Há dois dias pleito eleitoral, esta é a única expectativa que nutro pela eleição.

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O sonho não começou.

29 agosto, 2006

Tenho uma amiga que também resolveu mudar os rumos de sua vida e na guinada, viu-se obrigada a voltar aos estudos e as carteiras das salas de aula. Encontrei-a um dia desses, no chá de bebê da futura Helena e, em meio uma conversa estudantil, ela me perguntou se eu já estava sonhando com estudos.
-Não. Ao menos ainda não.
Ela riu e me falou sobre alguns que andava tendo. Durante suas noites de sono, as matérias que estuda freqüentemente invadem seus sonhos das mais curiosas e, creiam, ilustrativas formas.

Com o tanto de leis que ando estudando, se com elas sonhasse, acordaria preso.

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Excremento da noite.

21 abril, 2006

Em busca da ilegalidade redentora, encho meu copo com os amigos no bar.
De repente, um chinês do Ipiranga se levanta e diz, intrépido:
-Eu só trabalho com coisa suja e antiga.
E arremata:
-Sou um antiquário.

Naquele momento, eram desses ensinamentos que eu estava precisando.

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Fora o baile.

19 abril, 2006

Tenho muitas amigas: belas, lindas, lindíssimas e estupendas; trabalhadoras, descoladas, que fazem moda nas passarelas, ruas e, vejam vocês, até na praia; tem as casadas, as solteiras, as separadas, as santas e as do pau oco; tem as magras e boas, as com curvas estonteantes e as de beleza interior; tem as de cabelo curto, cumprido, as taradas e as paraquedistas; tem as de sorriso vasto e encantador, as que não perdem uma balada, as que não saem de casa e as resistentes a qualquer tempestade. Meus amigos não ficam atrás em sua diversidade: pretos, amarelos (às vezes são pretos e amarelos), brancos, cor de rosa, bêbedos, sóbrios, uns são feinhos, outros bem feios; tem boleiros, políticos, marqueteiros, butequeiros, publicitários, cabeçudos, espiões, argentinos de Santo André, baianos paulistas em Londres, pindamonhangabenses baianos, franceses do Ceará e manezinhos de Brasília; tem ranzinzas, engraçados, sábios, doidos e bestas. E foi um desses amigos que me indicou, há algumas semanas, uma empregada para por um pouco de ordem em meu humilde lar.

Com ela me deparei num dia em que, ávido por um arroz que não fosse o meu, cheguei da aula de Processo Penal com uma fome avassaladora.
-E aí minha querida, tudo bem?
-Tudo, respondeu-me sem me dirigir o olhar.

Tudo? Mesmo eu, que não sou lá muito esperto, percebi pelo seu olhar e timbre de voz que, tudo tudo não poderia estar assim, tão bem.

Sentei-me com um prato repleto de arroz e uma mistura qualquer, pensando no que poderia ter acontecido. Logo cheguei a óbvia e ululante conclusão:
-Essa mulher quebrou alguma coisa. Batata.
A dúvida não chegou a me perturbar.
-Seu Aléquisei?
Sorri, como se de nada soubesse:
-Oi?
Ela, visivelmente constrangida, demorou-se um pouco a dizer o que, de repente, soltou de uma forma enrolada, quase ébria:
-Seu professor de balé ligou.
-Como quié?
-É… ele ligou e pediu pra você ligar pra ele.
Disse isso olhando pro lado, com a humildade dos simples que tem, arraigados, costumes e hábitos tradicionais. Rapidamente, voltou-se para as roupas que passava com esmero, sem mais olhar para mim. Era como se ela não exigisse explicações, como se dissesse “tudo bem, tudo bem… mas que eu acho esquisito, isso eu acho”.

Havia ainda um restinho de arroz no prato e o Globo Esporte vivia seus momentos crepusculares, quando passei a mão pelo telefone.
Eu sabia quem era o tal professor de balé. Na verdade, tenho uns quatro ou cinco deles e logo liguei para a primeira figura que me ocorreu. Fui certeiro. Meu amigo, um especial, havia pregado um de seus trotes favoritos e, ao ouvir minha voz do outro lado da linha, soltou sua gargalhada estratosférica, inconfundível, contagiante.

O dia passou e quando a empregada se foi, despediu-se com um sorriso que tinha um pouco de vergonha e outro tanto de incredulidade. Quando entrou neste humilde lar, ela julgava trabalhar para um estudante comum de nome estranho. Um cara que, quem sabe, estudava para ser dotô.

Hoje, ela acha convicta que meu sobrenome tem algo de Barichimicóvi e que, em minha mochila, carrego sapatilhas e uma roupinha justa, talvez azul com lacinhos cor de rosa.

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