Um de meus hobbies é observar gente. Isso mesmo: sou um observador de seres humanos. Não os desenho, não os fotografo e não traço seus perfis psicológicos. Eu só observo. Fico olhando a cara do sujeito que está na fila do banco, a garota que lê na minha frente no metrô, a pessoa que vê o horário das aulas no balcão de cursinho. Eu sempre estou à espreita do ser humano.
Quando sou notado, tento disfarçar. Às vezes não consigo e toda minha observação vai por água a baixo. Ao notar alguém que o observa, o ser humano tende a não se portar mais de modo natural. Fica incomodado e, se mais arredio for, pode até soltar impropérios.
-Tá olhando o que?
-Perdeu alguma coisa aqui?
E a clássica:
-Por um acaso eu tô cagado?
Não insisto. Ao ser descoberto, abandono a presa e volto os olhos para outro alguém.
Às vezes, dá pra ficar por muito tempo olhando uma pessoa. Notem: não sou um bisbilhoteiro que pego uma luneta e fico da varanda vendo o que os outros fazem. O BBB perdeu a graça pra mim já na terceira edição. Gosto de olhar de perto. No metrô, na padoca, na rua, na escada rolante, entrando na casa, abrindo o portão, descendo do ônibus, atravessando a rua ou batucando no volante do carro, esperando o sinal abrir. Não precisa ser num momento fatal. As melhores observações saem em momentos corriqueiros, naturais quando a pessoa está em sua condição mais miserável e humana possível.
Essa garota do meu lado, por exemplo. Tem o rosto castigado por espinhas e uma boca torta, mas é bonita. Sim, é bonita. Ela tem uma felicidade que lhe dá beleza. Se você passa rápido por ela e lhe dá uma breve e rasteira olhada, não percebe. Acha ela feia e ponto final. Mas não: a garota tem sua beleza. Ao contrário dessa loira tingida que está em pé na minha frente. Uma observação menos detida e mais libidinosa nos levará a óbvia impressão do tesão, da gostosona. Mas ela é triste. Talvez por isso. Talvez porque sempre a notem como uma boa trepada, que aliás, deve mesmo ser. Esboço uma simpatia canalha mas não sou notado. Volto a pura observação. E assim, percebo que, embora ela seja toda popozuda, tem a infelicidade e a frustração estampada na maquiagem de seu rosto. O oposto dela é aquele sujeito ali da frente. Todo desgramado, com uma roupa fudida, pés inchados e mãos sujas. Deve ser morador de rua e enfrenta todo tipo de adversidade. Possivelmente seus dias passam entre a indiferença dos que lhe vêem pela rua. Quando é notado, leva pro seu pedaço de papelão o desprezo alheio. Mas o incrível, o absurdo, o grotesco é que ele está feliz. Olha lá: o cara sorri. E sorri satisfeito enquanto olha pela janela do metrô, o escuro das galerias subterrâneas passarem. Chega a luz, uma nova estação e entra uma velhinha que toma sua direção. Ele se levanta para ceder-lhe o lugar, num ato de cidadania que poucos daquele vagão teriam. O sorriso não lhe sai do rosto.
Quando se levanta, posso ver que por baixo de seu moletom esfarrapado, ele usa uma camisa do Curintia.
Mendigo filho da puta.
