Arquivo da categoria ‘No metrô’

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No Olho.

22 abril, 2009

Um de meus hobbies é observar gente. Isso mesmo: sou um observador de seres humanos. Não os desenho, não os fotografo e não traço seus perfis psicológicos. Eu só observo. Fico olhando a cara do sujeito que está na fila do banco, a garota que lê na minha frente no metrô, a pessoa que vê o horário das aulas no balcão de cursinho. Eu sempre estou à espreita do ser humano.

Quando sou notado, tento disfarçar. Às vezes não consigo e toda minha observação vai por água a baixo. Ao notar alguém que o observa, o ser humano tende a não se portar mais de modo natural. Fica incomodado e, se mais arredio for, pode até soltar impropérios.

-Tá olhando o que?
-Perdeu alguma coisa aqui?
E a clássica:
-Por um acaso eu tô cagado?

Não insisto. Ao ser descoberto, abandono a presa e volto os olhos para outro alguém.

Às vezes, dá pra ficar por muito tempo olhando uma pessoa. Notem: não sou um bisbilhoteiro que pego uma luneta e fico da varanda vendo o que os outros fazem. O BBB perdeu a graça pra mim já na terceira edição. Gosto de olhar de perto. No metrô, na padoca, na rua, na escada rolante, entrando na casa, abrindo o portão, descendo do ônibus, atravessando a rua ou batucando no volante do carro, esperando o sinal abrir. Não precisa ser num momento fatal. As melhores observações saem em momentos corriqueiros, naturais quando a pessoa está em sua condição mais miserável e humana possível.

Essa garota do meu lado, por exemplo. Tem o rosto castigado por espinhas e uma boca torta, mas é bonita. Sim, é bonita. Ela tem uma felicidade que lhe dá beleza. Se você passa rápido por ela e lhe dá uma breve e rasteira olhada, não percebe. Acha ela feia e ponto final. Mas não: a garota tem sua beleza. Ao contrário dessa loira tingida que está em pé na minha frente. Uma observação menos detida e mais libidinosa nos levará a óbvia impressão do tesão, da gostosona. Mas ela é triste. Talvez por isso. Talvez porque sempre a notem como uma boa trepada, que aliás, deve mesmo ser. Esboço uma simpatia canalha mas não sou notado. Volto a pura observação. E assim, percebo que, embora ela seja toda popozuda, tem a infelicidade e a frustração estampada na maquiagem de seu rosto. O oposto dela é aquele sujeito ali da frente. Todo desgramado, com uma roupa fudida, pés inchados e mãos sujas. Deve ser morador de rua e enfrenta todo tipo de adversidade. Possivelmente seus dias passam entre a indiferença dos que lhe vêem pela rua. Quando é notado, leva pro seu pedaço de papelão o desprezo alheio. Mas o incrível, o absurdo, o grotesco é que ele está feliz. Olha lá: o cara sorri. E sorri satisfeito enquanto olha pela janela do metrô, o escuro das galerias subterrâneas passarem. Chega a luz, uma nova estação e entra uma velhinha que toma sua direção. Ele se levanta para ceder-lhe o lugar, num ato de cidadania que poucos daquele vagão teriam. O sorriso não lhe sai do rosto.

Quando se levanta, posso ver que por baixo de seu moletom esfarrapado, ele usa uma camisa do Curintia.

Mendigo filho da puta.

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Bonju

5 março, 2008

Quando me dei conta, o sujeito já estava ali com uma camisa da seleção francesa de futebol. Era uma camisa antiga, Le Coq Sportif. Acho que nem existe mais essa marca. Existe? Cara, eu tive uma camisa do tricolor da Le Coq. Nunca vou me esquecer o que foi ganhar aquela camisa, minha primeira camisa oficial do São Paulo. Outro dia vi um cara no Morumbi com uma dessas. Só pode ser farseta, não é possível. Estava novinha. Quando ganhei a minha, era, sei lá… mil novecentos e oitenta e poucos. Meu ídolo era o Zé Sérgio, um ponta esquerda que driblava o que viesse pela frente. Quebraram-lhe a mesma perna duas vezes e ele nunca mais foi o mesmo. Porra, mas como assim o cara veste uma camisa da França?

Será que esse cara é francês? Tem cara é de paranaense. Certeza… deve falar mais lei-TE quen-TE que champagne.

Lembrei-me dum amigo que ama o francês. O idioma, não me entendam mal. O cara estudou a língua de Victor Hugo por muitos anos e chegou a comprar CDs do Charles Aznavour para ouvir com sua namorada, numa época em que as pessoas ainda compravam CDs. Dizem as más línguas que ele chegou a ficar feliz com as seguidas vitórias da França sobre nosso escrete nas Copas de 1998 e 2006, coisa que duvido. Eu o conheço bem e sei que não se daria a tal inconfidência. Napoleão Bonaparte pode ter conquistas mais grandiosas que Deodoro da Fonseca, mas o Zidane pra chegar num Pelé manco e caolho, tem que comer muito, mas muito escargô. Nada: é arroz e feijão mesmo que o cabeção tem que comer. E deixa esse cara pra lá que ele me traz péssimas recordações.

A última vez que encontrei esse meu amigo que fala francês, saímos pra tomar um chope numa espetacular esquina da ensolarada Jaú. Perguntei-lhe como andava o idioma dos três mosqueteiros que, por sinal, andava meio devagar.
-Dei uma desencanada, viu meu?
-Mas por que, bicho? O biquinho que você fazia pra falar abajur era ótimo.
-Tô meio sem tempo e, no mais, se você quer mesmo saber da verdade, três caras me ensinaram que não há língua mais bonita que a nossa, viu meu?
-Quem?
-Machado de Assis, Nelson Rodrigues e Chico Buarque.

E não é?

A camisa da França da Lê Coq Sportif desceu na Sé, minha descida. Ainda a segui por dois lances de escadas, pensando em como seria bom se tivesse Joaquim, Nelson ou Francisco pra me explicar regência nominal.

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Duro de aguentar.

25 fevereiro, 2008

A pilha do meu i-pod genérico havia acabado há duas estações quando ela entrou no metrô, na estação Liberdade, com dois colegas. Eu não tinha nada pra ler no caminho, salvo meu caderno e um exemplar da Constituição Federal, de modo que preferi vir ouvindo a conversa dos outros a me entregar à leitura. De leis e teorias eu já havia tido o suficiente para uma quarta-feira.

Logo um assento vagou ao meu lado e ela o dominou, tão rápido quanto sua língua que esbanjava preparo físico àquela hora da noite. Com que vigor reclamava de tudo! Talvez por isso tinha os olhos tristes e uma postura curvada, como se carregasse um enorme peso sobre as costas franzinas. Quando ela se acomodou no assento, já descascava o prefeito. Depois, veio a ex-prefeita, os telefones celulares, os bares da Vila Madalena, os motoboys, o Arnaldo Antunes, o Lost, a insegurança que não permitia que ela pudesse caminhar do ponto de ônibus até a sua casa com tranqüilidade, a mulher do cafezinho lá da firma, os cobradores de ônibus e os Racionais MCs e suas gírias suburbanas. E por falar em suburbana, perguntou se os amigos conheciam a namoradinha do Armando.

-Não.

Não? Nem ela. Mas isso não a impediu de descascar a tal moça que vivia lá na Zona Leste.

-Imagina o naipe, né?

Sei que o Armando trabalhava das 8 da matina às 19:30, quando todos saíam as 20h. E, se o Armando trabalhava só 10 horas e meia por dia era porque ia buscar sua pequena na faculdade. Enquanto a moça cacetava o pobre apaixonado, eu imaginava o velho e bom Armandão atravessando a cidade, feliz da vida, para ir buscar sua namorada. Pegava-a na faculdade e a levava pra casa, ouvindo as novidades e roubando-lhe beijos entre um e outro sinal vermelho. Entregava a garota no portão de sua casa simples, dava-lhe mais uns beijinhos, uns apertos, fazia juras de amor e voltava, já transbordando de saudades antes mesmo de chegar ao seu carro.

-Ele tá pensando o que? Que sai cedo todo dia, como se a firma fosse dele? Pensa que está numa repartição pública? Quer moleza, vai ser funcionário público, pô!

Agüentei calado aquela declaração que ardeu-me como um tapa na cara. Dizer o que? Eu estava cansado pra discussões. Mas não ela para cornetar. E assim chegou a vez do bruxinho camarada Harry Porter. Se o livro já era um lixo, o filme então nem se fala. Meu Deus! Como uma mãe pode deixar um filho ler um negócio daqueles. Pior é dizer que aquele filme é legal. Não dá, né? E por falar em filme, perguntou aos amigos, com um sorrisinho de desprezo, se eles haviam visto Duro de Matar 4. Quatro ponto zero.

-Não.

Pois não haviam perdido nada. Aquilo era uma merda, com o perdão da palavra. Meu Deus, como alguém pode ver aquilo e gostar? Ela foi, viu sim, mas foi praticamente obrigada pelo irmão. Saiu do cinema com vontade de exigir seu dinheiro de volta. Nem a pipoca prestou. Aquele Bruce Willis tinha mais era que se aposentar e o seu personagem era uma porcaria, um enlatado americano nojento desses que não valem um tostão furado. Mas qual era mesmo o nome daquele policial idiota?

-John McLane, respondi levantando-me para descer. John McLane, moça. E saiba que se houvesse um John McLane no seu bairro, um só, você poderia descer do ponto de ônibus e caminhar até a sua casa com absoluta segurança, mesmo que carregasse nessa sua bolsa surrada 6 milhões de dólares. E se John McLane trabalhasse em Sampa, talvez hoje você não passasse por nove estações de metrô metendo a boca em tudo que é ser vivo deste planeta.

Saí sem ouvir sua resposta ou saber se houve alguma. Falar mal de servidor público, tudo bem. Mas de John McLane ninguém fala mal e sai impune pra contar.

Ninguém.

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Turma de exercícios.

19 fevereiro, 2008

O trem demorou a chegar, provocando um pequeno tumulto na porta do vagão. Nada muito desesperador se comparado a Estação Sé, por volta das 18:30. Mas aquele pequeno aglomerado me causou um certo desconforto. Devo estar ficando, de fato, velho para multidões.

Uma garota desesperada por um assento passou por todos sem fazer cerimônia alguma em ocupar um assento cinza reservado aos idosos, grávidas, deficientes e fudidos em geral. Eu me arrumei num canto, aumentei o som do meu I-Pod genérico e viajei, estação após estação, em nada. Creio que nenhum pensamento consistente me passou pela cabeça. Cheguei a esboçar um movimento pra retirar a Constituição da mochila e dar uma olhada num artigo qualquer, mas tal pensamento não chegou a ser levado a sério pelo meu cérebro. Não fazer nada já estava de bom tamanho.

Chegamos à Liberdade e mais gente embarcou, apertando ainda mais as pessoas no vagão. No assento cinza, a garota não parecia mais desesperada. Aliás, estava muito tranqüila lendo um livro qualquer. Não consegui ler o título da obra, mas troquemos o livro por uma revista vagabunda de fofoca e temos aí a vilã ideal: sem escrúpulos ou senso de cidadania, essa alienada tomou o lugar de uma velhinha cansada, deixando a pobre ansiã pendurada à sua frente, sofrendo em suas varizes tão abundantes quanto os rios numa carta hidrográfica amazônica.

Maldita garota!

E pra ela eu olhava com desprezo quando me dei conta que havia esquecido a borracha em cima da mesa da sala, no meio dos meus rascunhos de exercícios de Contabilidade.

Naquele dia, eu não poderia errar.

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Teus risonhos lindos campos têm mais flores.

23 agosto, 2006

Ontem reencontrei no metrô, quando voltava da aula, a garota dos peitos que tem o poder de parar qualquer aula.
Notem: eu disse qualquer aula e, creiam, não há um milímetro de exagero em minhas palavras.
Conversávamos sobre concursos quando, na estação Paraíso, vagou uma cadeira. Ágil, ela e seus peitos se sentaram rapidamente, não dando a menor chance para uma garota magrinha que também esperava ansiosamente um lugar para encostar seu corpo cansado. Eu permaneci em pé. Ela pôs os livros sobre as pernas e a conversa prosseguiu. Dali de cima, confesso que suas considerações sobre dificuldades da última prova para Fiscal do Trabalho não tinham mais a menor importância. Tentava desviar os olhos de seu decote numa vã tentativa de ser cavalheiro ou, no mínimo, menos calhorda. Cheguei a ver a magrinha sentando-se num banco cinza reservado a idosos, gestantes e deficientes. Tentei ler os cartazes publicitários e cheguei a olhar o mapinha com as linhas do metrô, em busca de uma estação que não conhecesse. Simulei uma limpada nos óculos e inventei um cisco em meus olhos. Não adiantou. Antes que o trem parasse na Vila Mariana, eles, ansiosos e saltitantes como duas criancas que chegavam ao Hoppi Hari e avistavam todo o esplendor de sua montanha russa, voltaram ao decote fatal. Ela continuava falando e eu ali, evitando a tentação de olhar descaradamente seu patrimônio, isento de tributações. Senti-me uma espécie de Zé Rainha ou Stédile bem em frente um baita latifúndio, protegido apenas por uma inofensiva cerquinha branca rendanda de contos da carochinha.
Ela percebeu o perigo da invasão, mas nada fez. Continuou falando sobre o concurso pretérito, absolutamente segura, moderna, madura, senhora de si, de seus peitos e de seus direitos. Ela sabia que estava amparada pela lei.

Afinal, um latifúndio desses não pode ser improdutivo.

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Um escândalo de privatização.

9 março, 2006

Antes de passar pela catraca, avistei, lá longe, aqueles peitos que invariavelmente paralisam as aulas, seja lá qual for a sua disciplina. Porém, desta vez não estavam a sós e eram pressionados com voracidade por um outro peito, o de um magricela alto, num canto nada discreto da Estação República de Metrô.
Antes de descer o primeiro lance de escadas, olhei para trás, buscando uma confirmação daquele escândalo.
E não me restaram dúvidas: os peitos estão privatizados.

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