Magra, muito magra, ela é dona de um corpo desprovido de curvas. Seus cabelos escorridos e compridos chegam até o meio de suas costas franzinas. Ela tem o rosto cheio de ângulos retos e um queixo exageradamente avançado que lhe dá à boca, uma dimensão esquisita em sua cara torta. Seus olhos são tristes e negros, sustentados por olheiras profundas e desesperadas. Perambulo pelo mundão há três anos e vejo essa garota desde então. Soube há algum tempo que ela está nessas há uns 5 anos. Ou mais. Sempre sozinha, sempre sentadinha numa postura corretíssima, sempre com um livro no colo, sempre grifando artigos e parágrafos com suas canetas”destaca-texto”, sempre com seu fichário cor de rosa. Sempre feia.
Sempre? Será que ela sempre foi assim?
Mais a esquerda e algumas fileiras à frente, senta-se outra mulher. Morena, cabelos lisos e cumpridos, curvas fartas, olhos vivos e sorriso cativante. A mulher é um pecado capital, desses que fazem as chamas do inferno parecerem valer a pena. Tem um caderno e uma caneta Bic, a qual morde a ponta caprichosamente durante as aulas. Ela não é uma simples mulher; é um comercial de cerveja. Entrou no mundão há mais ou menos seis meses e está sempre viva, sempre gostosa, sempre sorrindo, sempre segura de si e sempre, como direi, arejada. E às vezes, brinda-nos com um generoso decote, desses que enlouquecerá qualquer repartição pública.
Será que ela será sempre assim?
Quando este tesão de mulher virar aquela queixudinha sem sal, quero estar bem longe daqui. Talvez com a pança daquele careca ali da esquerda, ou com óculos de fundo de garrafa do tiozinho lá da frente ou com o tique desse cara que está ao meu lado, que pisca e mexe o ombro a cada 5 segundos. Mas não com os cabelos grisalhos desse que está indo beber água. Aí não, bicho! Quando os cabelos brancos chegarem, estarei livre.
Ainda que boiando sobre um saco de cocos, enfrentando a força da maré, estarei livre! Livre, McQueen!
-Então volta a prestar a atenção, ô viajandão, pois ainda falta meia hora pra a aula terminar.
