Arquivo da categoria ‘No cursinho’

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Papillon.

10 março, 2009

Magra, muito magra, ela é dona de um corpo desprovido de curvas. Seus cabelos escorridos e compridos chegam até o meio de suas costas franzinas. Ela tem o rosto cheio de ângulos retos e um queixo exageradamente avançado que lhe dá à boca, uma dimensão esquisita em sua cara torta. Seus olhos são tristes e negros, sustentados por olheiras profundas e desesperadas. Perambulo pelo mundão há três anos e vejo essa garota desde então. Soube há algum tempo que ela está nessas há uns 5 anos. Ou mais. Sempre sozinha, sempre sentadinha numa postura corretíssima, sempre com um livro no colo, sempre grifando artigos e parágrafos com suas canetas”destaca-texto”, sempre com seu fichário cor de rosa. Sempre feia.

Sempre? Será que ela sempre foi assim?

Mais a esquerda e algumas fileiras à frente, senta-se outra mulher. Morena, cabelos lisos e cumpridos, curvas fartas, olhos vivos e sorriso cativante. A mulher é um pecado capital, desses que fazem as chamas do inferno parecerem valer a pena. Tem um caderno e uma caneta Bic, a qual morde a ponta caprichosamente durante as aulas. Ela não é uma simples mulher; é um comercial de cerveja. Entrou no mundão há mais ou menos seis meses e está sempre viva, sempre gostosa, sempre sorrindo, sempre segura de si e sempre, como direi, arejada. E às vezes, brinda-nos com um generoso decote, desses que enlouquecerá qualquer repartição pública.

Será que ela será sempre assim?

Quando este tesão de mulher virar aquela queixudinha sem sal, quero estar bem longe daqui. Talvez com a pança daquele careca ali da esquerda, ou com óculos de fundo de garrafa do tiozinho lá da frente ou com o tique desse cara que está ao meu lado, que pisca e mexe o ombro a cada 5 segundos. Mas não com os cabelos grisalhos desse que está indo beber água. Aí não, bicho! Quando os cabelos brancos chegarem, estarei livre.

Ainda que boiando sobre um saco de cocos, enfrentando a força da maré, estarei livre! Livre, McQueen!

-Então volta a prestar a atenção, ô viajandão, pois ainda falta meia hora pra a aula terminar.

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Teorias

12 dezembro, 2007

Certa vez, Amaral, um amigo que jamais jogou na volância do Palmeiras ou teve a coluna estrupiada pelo Romário, disse-me que as relações humanas são como pratinhos que você equilibra em varetas, como um profissional circense. Quando um pratinho ameaça cair, cabe a você dar lhe um impulso, uma girada para que ele permaneça em equilíbrio. Até que chega um dia em que você recebe uma ligação de uma garota que conheceu há algumas baladas. Ela vem com um papinho mole, sem muito dizer mas claramente mostrando que está ali e que, quem sabe, algum dia, poderia rolar um choppinho. É quando você se dá conta de que também é um pratinho.

Hoje o meu amigo equilibra um único e adorável prato e se mantêm girando, feliz e menos ranzinza que há alguns anos. Eu não tive a mesma sorte e, pra dizer a verdade, sempre fui melhor palhaço que equilibrista. Pratos que não valiam a pena eu girava com ternura enquanto outros, não tão rasos, eu deixava que se espatifassem no chão. Tudo com muitas cambalhotas, piruetas e trapalhadas. E depois, longe do picadeiro, ouvia o seu Francisco cochichar-me ao pé do ouvido:

-Vida, minha vida, olha o que que eu fiz….

Lembrei disso tudo quando, no final de semana passado, o professor de Comércio Internacional falou sobre a Teoria do Amaral, porém, adaptando-a para o contexto concursal. Ele substituiu os relacionamentos pelas matérias cobradas em concursos públicos e voilà: temos mais uma metáfora do mundão.

Pô, ninguém vai contar uma história que tenha umas cervejas geladas em ampolas de 600ml, uma praia ensolarada com um mar Verde Jeri, uma rede entre as palmeiras e um monte de gostosas com os peitões pra fora abanando o concurseiro aqui?

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Gabarito.

3 dezembro, 2007

Na manhã de sábado, eu tomava meu café num copo plástico no corredor apertado do cursinho enquanto três caras conversavam ao meu lado. Em minha mente ainda ecoava a voz do carioca simpático que nas últimas duas horas falara sobre uma infinidade de siglas existentes dentro Comércio Internacional: GATT, OMC, SGP, SGPC, UNCITRAL, OCDE, OMA e outras mais. Porém, meus ouvidos não deixavam minha mente em paz e insistiam em filar a conversa ao lado.

Eram dois palmeirenses e um corinthiano e dito isso dou espaço à preguiça e não descreverei o óbvio teor do triálogo. Economizo assim algumas linhas e sua paciência. Mas se nada disse sobre como aquela conversa começou e se desenvolveu, conto-lhe como acabou. E quem pôs termos finais ao papo, foi o fiel torcedor quando, cansado de responder às gracinhas dos rivais com um sorriso sempre amarelo, bateu amigavelmente a mão no peito de um dos alvi-verdes e afirmou convicto, com uma ponta de orgulho:

-Time grande não cai pra segunda divisão, não, ô porcada. Segundona é coisa de timinho, tá ligado?

E não é que ele tinha razão.

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Tem que ter peito.

14 agosto, 2007

As pessoas no mundão vão e vêm sem quaisquer limitações ao tráfego. O direito constitucional, dito fundamental, expresso no artigo quinto da Constituição, que nos garante livre locomoção pelo território nacional em tempos de paz é plenamente observado entre os concurseiros. Nessas, você pode tirar duas conclusões: uma é que volta e meia fico órfão das amizades que faço nas salas de aula e outra é que, de fato, estou me tornando um nerd absoluto a ponto de citar a Carta Magna num texto corriqueiro. Mas vamos em frente.

Como a maioria das pessoas fica de fora da lista classificatória, elas reaparecem com a mesma desenvoltura com que somem das salas.Todos no mundão tem sua vida pautada pelos editais e alternam sua condição nos cursinhos preparatórios entre desaparecidos e presenças constantes.

Eu não sou uma exceção e tenho minhas aulas pontuadas por encontros e desencontros. Ontem, por exemplo, no intervalo da aula, revi um cara que havia conhecido num curso que rolou no ano passado, quando me preparava para a prova de Fiscal do Trabalho. Porém, embora nos reconhecêssemos, não houve qualquer reação que extrapolasse um breve “e aí, beleza?”. O fato é que esse cara que aparenta ter seus 40 e poucos anos e carrega o peso da constituição de uma família num dedo esquerdo, sabe muito sobre as matérias. Muito mesmo. Lembro-me durante as aulas de todo o conhecimento que ele transpirava, fosse em suas perguntas aos professores, fosse em comentários jurídicos que fazia durante o café do intervalo.

Quando o vi ontem, naquele corredor cheio de concorrentes, fui acometido de tristeza e medo. Eu tinha certeza que aquele sujeito havia passado e o imaginava autuando patrões malvados e descumpridores da lei. Mas não. Lá estava o cara, com seu café fumegando num copo plástico, pronto para assistir a mais uma aula. Ver um concurseiro com todo aquele conhecimento ainda na fila, é de deixar o cabelo em pé. É ter uma idéia pura e cristalina de como é a concorrência real em um concurso de grande porte. E creiam: é muito mais assustador do que qualquer relação candidato X vaga expressa em frios números dos jornais especializados.

Eu preferia ter encontrado a garota dos peitões.

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Coleguinhas.

6 agosto, 2007

Ontem, domingão em que o tricolor paulista mostrou ao dos pampas quem é de fato o Imortal, tive aula de Direito Tributário. Não vou me queixar por dois motivos simples: um é que já me acostumei com essa história de trocar divertimento pelo estudo e outro é que eu não seria desavergonhado a tal ponto que reclamaria da vida pra quem me lê em plena segunda-feira. E, se dois motivos são poucos para que eu não me queixe, vai aí um terceiro: se tá no inferno, malandrão, tem mais é que abraçar o capeta. E vamos em frente.

Se abri mão de meu direito ao protesto, também não saí por aí assoviando melodias alegres e dando saltos festivos enquanto ia pra aula. Não festejei o domingo tributário que despontava no horizonte e jamais imaginei que alguém pudesse promover tal comemoração. Mas no mundão, as coisas nunca são assim tão óbvias e, antes das nove da matina, uma garota se senta numa carteira da frente e filosofa:

-Eu gosto de ter aulas no fim de semana. Acho que aproveito mais, não sei. Desde criança, sempre gostei de estudar nos finais de semana.

Ri achando que a moça fazia graça e ainda com o gosto da pasta de dentes na boca, embalei na conversa em ritmo de piada. Mas fui logo cortado pelo seu tom de voz sério e o olhar nostálgico que fitava a lousa ainda sem quaisquer escritos:

-Quando criança odiava a sexta-feira. Ficar dois dias sem ir a escola era um senhor sacrifício pra mim, sabe? Além de não ver os amiguinhos, eu sempre gostei de estudar, de ter aulas.

Foi inevitável eu comparar minha infância descalça e em fuga do colégio com a daquela moça de vestes sóbrias e português refinado. Senti-me, a princípio, um brutal ignorante, um sujeito rasteiro e sem futuro. Cheguei a recriminar meus pais por jamais terem posto em minhas mãos adaptações dos clássicos de Monteiro Lobato voltados para o mundo jurídico. Ao invés de me darem bolas de capotão pra eu correr atrás, deveriam ter me presenteado com As Aventuras de Pedrinho no Mundo da Tributação ou com As Taxas de Emília ou ainda com Sonegações Fiscais da Cuca.

Assim, triste e cabisbaixo, passei a meia hora inicial da aula, sentindo-me um completo alienado. Foi quando entrou uma outra garota na sala. Atrasada, ela trazia na cara a desfaçatez da balada que obviamente havia terminado há algumas poucas horas. Sentou-se ao meu lado, jogou a bolsa no chão e antes de colocar o caderno sobre a carteira, cochichou com uma leve rouquidão:
-Cara, eu ainda tô chapada do Rock and Roll de ontem. Caceta!

Abri o maior sorriso do mundo pra ela, que ficou sem entender o profundo abraço de agradecimento que lhe dei enquanto o Código Tributário Nacional era esmiuçado na lousa azul iluminada por lâmpadas fosforescentes.

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Sábado de sol.

18 abril, 2007

Sábado eu tenho aula.
É mole?
Das nove da manhã às quatro da tarde.
Pode crer?
De Contabilidade.
Aí esfarelou, né não?
Mas tudo bem, tudo bem, vamos lá. Eu acordo e vou. Concentro-me durante todo o percurso, da Saúde a Sé, da Sé a República, pensando que vai ser legal, que vai ser bacana, que vai ser, enfim, supimpa.
-Tesão! Mais um sabadão massa!

É melhor assim. Na verdade, é bem melhor pensar que vai ser legal, que esse troço todo é um desafio e que deve ser superado numa boa e que é de desafios que vive um homem. Sem essa de achar que é uma merda, que é chato, que é um porre e tal. Pensamento positivo, bicho, que a coisa flui, pode crer?

-É nozes.

E assim, nessa pegada, a manhã passa em meio a lançamentos contábeis e participações societárias classificadas no Ativo Permanente, Imobilizado. Das nove da matina a uma da tarde, com 15 minutos de descanso, fico ali, numa sala apertada, com mais 110 concurseiros, destrinchando os mistérios da Contabilidade com ar condicionado bombando sobre as cabeças em transe.

E então vem o almoço.
E então, vem o depois do almoço.
E então, o bicho pega.

Com o estômago cheio, sabe como que é, né? A comida bate no estômago, o estômago, que não é de ficar quieto, senta a porrada nos neurônios que tentam paralisar as atividades cerebrais. Tudo isso se reflete nos olhos, que ameaçam cruzar as pálpebras, e na mente, que bota em prática a Operação Tartaruga.

É quando lanço mão de minha diplomacia interior. Enquanto escovo os dentes ao lado dum oriental magricela, discurso para os meus botões, representantes da classe neuronial na sub-região corpórea de meu cérebro. Sentamos na mesa de negociação e discutimos propostas. Digo que temos que estar unidos, principalmente, nas adversidades. Cobro uma postura honrada de todos, visto que nas locuradas, baladas e festanças ninguém reclamava. Agora, era preciso que todos cooperassem. Jogo até aquele papinho de estarmos no mesmo barco e tal. Aquela conversa manjadíssima de que todos deviam dar um pouco de si, num esforço coletivo em prol de um objetivo comum, eu também uso. E nosso objetivo comum é o de sempre: mais baladas, mais festanças e outras locuradas. No mais, o pior já passou. Naquele momento, quando o relógio acusa duas da tarde e a aula recomeça, só faltam duas horas para o fim daquilo tudo e convenhamos: pra quem está naquela cadeira desde as nove da manhã, 120 minutos é coxinha. E das Brasileiras.

Com o acordo na mente, concentro-me, aprendo, anoto, resolvo exercícios e tiro minhas dúvidas. O tempo passa e eu lá, com meus neurônios, estômago, olhos e botões focados na Contabilidade.

O relógio bate 15:30 e a situação se torna dramática. Eu não consigo mais enganar a mim mesmo. Aquilo tudo é uma merda, é difícil, é chato, é um porre de Cinzano às duas da tarde sob o sol da Bahia. Ainda tento alguma coisa mas àquela altura, o estômago ronca, os neurônios cruzam os braços, os botões tapam os ouvidos e os olhos buscam a loira nariguda, de voz estridente e, se não é bela como sua amiga da esquerda, é dona de um corpo bem gostoso.

E então, eu me entrego.

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Os filhos de Aurélio.

16 março, 2007

Acabei de chegar de mais uma aula inicial e como todo começo de curso, o professor fala sobre a vida de um concurseiro, ou ao menos, como deve ser o dia-a-dia de um cara que, assim como eu, tem a pretensão de ser um funcionário público efetivo.
Geralmente, os mestres são concursados e assim falam com absoluto conhecimento de causa. Listam os perrengues que passaram até a aprovação fatal, as dificuldades e privações que foram submetidos e do quanto todo esse sacrifício valeu a pena. Uns, mais exaltados, dizem que o dia da aprovação foi o mais feliz de suas existências. Não hoje. Carioca Tributador se limitou a dizer que foi bom e que hoje pode realizar alguns de seus sonhos, como estudar os quatro filhos.

Mas não foi só nas suas realizações que este fiscal do ICMS do Rio foi inovador na aula inaugural. Tudo bem que ele falou coisas como “aqui, não se estuda pra passar mas até passar” e que “há diferenças entre quem se interessa por um emprego na máquina do estado e quem se compromete a conquistá-lo”. Também, não deixou o lugar comum quando enumerou as virtudes que um concurseiro deve ter (e caso não as tenha que trate de providenciá-las): persistência, dedicação, renúncia e concentração. Mas aí, nesse momento, ele fez uma observação no mínimo curiosa:
-Às vezes, a inteligência atrapalha.

Cuma?

Pois é, e agora tem essa: ser inteligente é um atraso no mundão. Ele se explicou dizendo que não é raro ter pessoas inteligentes que, já dando com a vitória certa, relaxam na preparação. Coisa que uma mula não faz em hipótese alguma pois, ciente de sua burrice, estuda até que os olhos escorram pela face indo pingar lá embaixo, em gotas viscosas, nas páginas da Carta Magna. E no final da disputa, o que temos? A anta na lista de aprovados e o inteligente de volta a sala de aula.

Eu coçava o queixo pensando em quantas fábulas de La Fontaine o nobre Carioca Tributador havia lido na infância, tempo em que ele sonhava em ser qualquer coisa, menos um fiscal, quando minha divagação é abruptamente interrompida pela avassaladora conclusão do mestre:
-O burro esforçado passa. O inteligente, nem sempre. E vamos a aula.

Esforço eu não estou poupando e inteligente, assim, inteligente, inteligente, eu nunca fui. Já tentei ser, mas o máximo que consegui fui um 8,5 numa prova de História Geral, no colégio. E olha que eu colei uma ou duas questões.

Em outras palavras: minhas chances são boas.

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Clássico.

8 fevereiro, 2007

No intervalo da aula de Constitucional, fui tomar um café na lanchonete da Colega, de quem já falei num fragmento pretérito, que fica naquela praça que não me lembro nome, atrás da Biblioteca Mário de Andrade. Sabe? Pois então, é lá. Sempre que tomo esse cafezinho, ganho um papo com a simpática pernambucana e uma rápida caminhada pela Av. São Luís. E lá andava eu, com minha tricampeã camisa tricolor, tentando digerir os ensinamentos de Japonês-Sabe-Absolutamente-Tudo-Né quando, entre os transeuntes, avistei um sujeito me encarando. Ele vinha em minha direção, trajando uma calça suja, camisa alvinegra desgastada pela má qualidade de sua pirataria e um boné surrado. Já próximos, ele pára, coloca a mão na cintura, bate o pé no chão num gesto de explícita reprovação e solta um inesperado desafio:
-E agora? Vamos brigar?
Disse me olhando com uma carranca que logo se desmanchou num sorriso fraterno. Estendeu-me a mão:
-Paz.
Retribui o cumprimento apertando-lhe a mão calejada:
-Paz, irmão.
Ele, uma típica figura do centro da cidade, insistiu:
-Pax.
E eu:
-Cuma?
-Pax é paz em italiano. Em inglês é piece.
Ficou um minuto em silêncio, ainda segurando minha mão:
-E em hebraico?
Insisti:
-Cuma?
-Como se diz paz em hebraico?

Desvencilhei-me de seu cumprimento sem sanar sua curiosidade. Desejei-lhe sorte e paz em português e tomei meu caminho, de certa forma, aliviado.

Imagina só o que deve ser aprender controle de constitucionalidade em hebraico?

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E quer sentar na janela?

6 fevereiro, 2007

Manja o tipo geniozinho da sala? Aquele cara que saca toda a matéria, sempre responde a todas as perguntas e se antecipa às deduções? Lembra dessa figura? Usa óculos, é gordinho (e o pior é que não sou eu) e não traz em suas colocações um pingo de decoreba, só conhecimento. Se ligou? O cara é uns 80 kg distribuídos em um metro e sessenta e poucos de pura e absoluta inteligência.

Pois essa espécie de homo sapiens plus sapiens está fazendo aula comigo nessas manhãs quentes de verão. Todos os dias eu chego na sala, busco um lugar legal pra me sentar enquanto ele já está lá, pronto para mais um show de sapiência. Hoje fiquei pensando enquanto ele fazia uma pergunta super bem colocada ao Japonês-Sabe-Absolutamente-Tudo: esse cara devia fazer uma turnê mundial, realizando shows com seus neurônios super dotados. Eles dariam cambalhotas, voariam em trapézios, dariam saltos mortais e enfrentariam até o globo da morte, enquanto responderiam perguntas jurídicas. Tipo um circo de pulgas do Rui Barbosa.

Esse cara, o gordinho de óculos que não sou eu, é simpático, bem articulado e já desponta como o queridinho do professor, referência de toda a turma. Ele parece estar sempre pronto para uma colocação inteligente, sempre preparado para mais uma resposta que humilha a toda a sala, repleta de gente normal, pessoas simplesmente esforçadas que lutam para entender tudo aquilo. Gente como o gordinho de óculos aqui.

Enquanto isso, sentada na janela, está uma garota magra, de cabelos curtos e negros como seus olhos. Volta e meia ela traz a caneta Bic entre os lábios que parecem estar sempre sorrindo, aliás, um belo sorriso. Ela tem uma aliança no dedo e um nariz levemente arrebitado, um par de imensas argolas penduradas nas orelhas e o QI de uma ostra.

Ainda bem que ela esta nessa turma.

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Futuros Funcionários.

24 agosto, 2006

Eu já o tinha visto de passagem. Mas foi no começo de uma aula, quando ele se sentou ao meu lado, que a ficha caiu. Ele falou duas palavras, riu, jogou a pança pra frente, ajeitou os fios de cabelo que antecedem sua careca, inclinou o queixo pra frente e se concentrou na aula. Foi o suficiente para que eu, incrédulo, me desse conta de quem estava ao meu lado: Homer Simpson.

A mesma voz, a mesma pança, o mesmo riso, o mesmo cabelo, a mesma pose. Só não estava de camisa branca. A aula perdeu a importância. Como me concentrar na legislação penal se ao meu lado estava o cara que há anos, freqüenta meu televisor? Aguardei ansiosamente o intervalo e quando ele chegou, sacramentado como uma alforria, puxei conversa.

Homer é divorciado, curte Rock & Roll, prefere o Sammy Hagar ao David Lee Roth, tem uma filha, uma namorada e centenas de DVDs das mais variadas bandas tocando nos mais inusitados palcos. Não gosta de futebol, vota no Serra, toma café com muito açúcar, viaja nos solos do Satriani e presta concurso há três anos. Tira seu sustento do pequeno negócio que montou com sua namorada, comercializando cópias piratas que faz de seus próprios DVDs. Isso na parte da tarde, quando ele não tem aula. Durante as manhãs, quem vende o seu peixe, ali mesmo no centrão de Sampa, é sua sócia-namorada.

No momento, a menina de seus olhos é o concurso do ISS. Homer deseja ser fiscal da prefeitura.

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