Arquivo da categoria ‘Jurisprudência’

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Vovô Noel.

30 dezembro, 2009

Lembro-me de um Natal em Marília num tempo em que eu ainda acreditava em Papai Noel. Sim, acreditei muito tempo que o velho batuta não era um miserável merchandising de uma marca de refrigerante ianque. Mas não se engane: não era um pequeno imbecil que corria sentar no colo de qualquer velhinho fantasiado que distribuía balas em frente a lojas com grandes promoções, entregando-lhe a lista de meus sonhos infantis. Sim, acreditava eu em Papai Noel, mas nem por isso era um pequeno trouxa. Muito menos gay.

Sempre tive o Papai Noel como um cara safo que jamais se deixava ser visto. Ele entrava nas casas, deixava os presentes embaixo da árvore e vazava sem deixar vestígios. Mesmo em minha casa que não tinha chaminé nem lareira e nem mesmo neve caindo lá fora, ele dava o seu jeito de entrar e deixar nossos pedidos. Pra mim, o Papai Noel voava sozinho a uma velocidade maior que a do Super Homem e materializava os presentes com a força de seus pensamentos. Não tinha hohoho, nem saco, nem trenó e muito menos renas.

O Papai Noel era um verdadeiro super herói.

Mas eu comecei a falar de um Natal em Marília, não foi? Pois vamos a Marília, na casa de Dona Maria, numa noite de 24 de dezembro do começo da década de oitenta. Havia um forte boato entre a primaiada que o Papai Noel finalmente daria as caras. Perceba: eu nunca havia visto Noel. Pra mim, ninguém o havia visto. Quem relatava encontros com o velhinho presenteador não dizia a verdade. Ou, na melhor das hipóteses, havia sido enganado.

-Você viu o Papai Noel?
-Vi.
-Viu nada.
-Vi sim!
-Olha meu, de duas uma: ou você é mentiroso ou muito trouxa.

O velho batuta não presenteava só os ricos e portanto tinha muito o que fazer na noite natalina. Eram muitas crianças ao redor do mundo. Acreditar que o velho batuta poderia se dar ao luxo de ficar um tempo em uma casa, festejando com uma única família, era um absurdo sem tamanho.

Mas o homem apareceu, ali, no vasto quintal da Dona Maria. Perdi a fala.

Lá estava o Papai Noel, com minha família, cercado de presentes, sentado no quintal, distribuindo embrulhos para todo mundo. Os adultos se divertiam e a criançada pirava. E eu ali, hipnotizado. Até que um primo, mais velho e mais esperto, chegou mais perto e cochichou-me ao pé do ouvido:

-Reparou que o Papai Noel tem o sapato igual ao do seu vô?

E tinha.
Mas como?
Não era possível!
Seria o Papai Noel meu próprio avô?
Franzi a sobrancelha e cocei o queixo, cofiando uma barba que ainda demoraria anos a aparecer. Sim, sim, aquela história fazia sentido, afinal, em todos os Natais estava meu avô. Mas como conseguiria ele, durante todos esses anos, sair da festa sem ser percebido, dar a volta ao mundo distribuindo presentes e voltar para mais uma cerveja e meia dúzia de piadas?

-Porra, o cara é o Papai Noel. Essas tarefas pra ele é coxinha.

Claro que meu primo não disse “porra” nem “coxinha”, mas expressões equivalentes para a época e para nossas idades. E, independente de como falou, em minha cabeça a pergunta permanecia firme como um rei mago de presépio: será que o Papai Noel era o vô Lacerda?

-Alexei!

Chamou-me o Papai Noel com um pacote em punho. Não tinha a voz parecida com a de meu vô. Era mais rouca, eu acho. Sei que quando me aproximei, assombrei-me ao dar de cara com os óculos do velho Lacerda. Meu Deus! Era meu vô! Encarei-o num misto de assombro e orgulho e perguntei, desencanado do presente que ele me estendia com um vasto sorriso atrás da barba branca de lã:
-O senhor é meu avô?
-Não. Sou o Papai Noel, menino.
-Mas eu acho que é meu vô.
-Que vô o que, garoto! Sou Papai Noel, não está vendo? Pega seu presente, anda.
-Mas e esses óculos? E o sapato? O sapato é igual ao do meu avô.
Papai Noel ficou mudo. Meu primo mais velho e mais esperto riu triunfante. As crianças arregalaram os olhos atônitas. Alguém precisava tirar o velho Noel daquela sinuca.

Não me lembro muito bem como aquilo terminou. Até hoje minha família lembra do episódio entre risos e galhofas e assim é uma das maneiras que meu avô continua presente em todos nossos Natais. Todos.

Desde aquele Natal em Marília, no quintal da Dona Maria, o Papai Noel não mais participou de minhas festas. E se você quer saber da verdade, nem fez falta.

Afinal, quem teve um vô Lacerda sabe que o Papai Noel pra ser bacana, mas bacana mesmo, tem que comer muito, mas muito arroz e feijão.

E tomar uma boa cachacinha.

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Class up you ass!

3 março, 2009

Agora não tem mais jeito: o ano começou mesmo.
Se você sobreviveu ao carnaval, seja à loucura das bebedeiras seja ao tédio dos desfiles em frente à TV, saiba que daqui pra frente não tem mais desculpas: agora, negão, ou vai ou racha.

Até dezembro, você tem promessas a cumprir ou a esquecer; metas a atingir ou concorrentes a lhe superar; alegrias pra viver e tristezas pra tentar esquecer.
Mas lembre-se do que um dia nos ensinou o poeta numa quarta de cinzas: tristeza não tem fim.
Felicidade sim.

Eu tenho aula durante toda a semana, sem parar. As provas que quero fazer tem a publicação de seus editais adiada todas as semanas. Não tem um dia que não se ouve um boato, um buchicho. Há nos corredores dos cursinhos um misto de angústia e esperança. A crise também chegou ao mundão. E no mundinho, todo mundo tenta se virar como dá. Perde contas, aperta o cinto aqui, busca novos clientes ali, oferece novos serviços acolá. Surgem freelas. É mais barato pagar um redator freelance que um redator-funcionário. Acabei descolando alguns deles pra fazer. E no tempo que sobra, não freqüento happy-hours: estudo. Só correria nesse calor infernal que vem rachando o concreto de Sampa. Mas ainda ando de havaianas, bermudas e visto um vasto sorriso no rosto redondo, que esse ano vai afinar.
Ah, vai!

O ano começou pedreira, porrada nos neurônios. Talvez por isso o Iron Maiden e o Motorhead vão tocar em datas tão próximas, daqui algumas semanas. Minha cabeça já começa balançar agitada.
Na arena ensurdecedora estarei.
Bêbedo.
Em meio a milhares de doidos.
De camisa preta e tênis.
De olhos vidrados nas caveiras e chamas do inferno que enlouquecerão os amantes do bom e eterno barulho tão avassalador quanto inspirador.
E ainda terei um  sorriso, agora um pouco insano, um pouco infantil, no rosto inchado de cachaça.

Pois a felicidade tem fim, sim, meu querido poetinha. Mas ela só acaba quando o Lemmy mandar.

E vamos a aula.

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Tum-uísque-tum.

26 fevereiro, 2009

Desde que pus os pés no mundão do concurso público, toda a atividade que não envolva estudo parece ser uma perda de tempo.
Viajar.
Ir pra praia.
Conversar sobre assuntos que não dizem respeito a provas.
Ler jornal.
Ler livros que não sejam contábeis ou legais.
Ler blogs.
Escrever.
Ficar na janela olhando a vida passar.
Ir ao cinema.
Ir ao estádio de futebol.
Alugar um filme.
Ver futebol na TV.
Ir ao teatro. Tá bom, teatro não conta pois eu quase nunca vou. Pula.
Jantar ou almoçar fora.
Ir a aniversários.
Ir a festas.
Dar umas beijocas.
Ir ao Ibirapuera.
Bater um futebol.
Entrar num sebo.
Ir a churrascos na Nova São Paulo.
Jogar pôquer.

Mas o problema, ou a solução, é que perder tempo é uma de minhas especialidades. E no carnaval, isso fica tão evidente quanto as curvas da rainha de uma bateria nota 10.

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Elixir.

13 fevereiro, 2009

Eu sofro de insônia.
Bom, não sei se isso é um sofrimento e nem mesmo se eu realmente tenho insônia. O fato é que passo algumas noites em claro sem que tenha um motivo aparente pra isso.
Tem noite que eu simplesmente não consigo dormir.

Isso vem de longe. Não sei bem de quão longe, mas faz tempo que tenho essa tal de insônia em minha cama. Se fosse contratado pelo Além para escrever destinos e fosse a mim designado escrever a parte do roteiro da minha vida que diz respeito a aspectos que fogem ao meu controle, passaria a borracha no “in”, metia uma maiúscula no “s” e então minhas noites em claro não seriam solitárias, mas partilhadas com Sônia, uma gata estonteante que só apareceria nessas noites em que eu não dormisse.
E quando Orfeu tomasse minha casa de assalto, ela iria embora sem se despedir, sem esquecer coisas, sem deixar bilhetinhos ou o número do seu celular.

-Porra cara, que putaria! Você tava indo tão bem com esse papo de insônia. Seu problema é querer ser criativo. Vai lá, dá seu recado e boa, bicho. Na repartição pública, ninguém vai querer saber de mané Sônia ou insônia. Esse papo de ser contratado do Além é demissão, viu meu. Não tem estabilidade que segura um papo desses, bicho. Se liga, meu! Dá a certidão positiva com efeito negativo pro cara poder entrar na porra da licitação e ponto final. Não fica de conversinha.

Meu senso crítico anda com um humor de Muricy nesses dias úmidos de verão.

Sei que passo noites em claro e, como foram várias delas, desenvolvi algumas técnicas para dar uma força ao sono quando meu cérebro reluta em descansar.

Comecei com 2001 Uma Odisséia no Espaço. O filme é ótimo, é do Kubrick e o caralho. Mas pega um dia e assiste ele deitado no sofá, lá pelas 3 da manhã.
Antes dos macacos jogarem o osso pro espaço, você já está roncando.

Outra técnica muito útil é ler livros de filosofia.
Filosofia mesmo, tipo A República, do Platão. Não adianta ler O Mundo de Sofia que não vai colar. Tem que ser um livro desses gregos que só coçavam e pensavam enquanto seus garotinhos lavavam suas costas peludas.
Se você vai aprender alguma coisa e descobrir o sentido dessa zorra toda, eu não sei. Mas contra insônia, Platão é batata.

Ontem estava nessas. Nada de dormir.
Deitava, rolava na cama e nada.
Tomei chá de camomila, suco de maracujá.
Nada.
Fui pra sala, liguei a TV e me dei conta que meu DVD do 2001 está emprestado.
Também não achei meu livro do Platão.
Então, enquanto pastores gritavam na TV, comecei a pensar que no outro dia estaria um bagaço e não conseguiria estudar.

-Meu, não vai dar pra perder um dia por conta de insônia. Jesus me chicoteie três vezes!

Então, num ato CDF ao extremo, abri o livro de exercícios de Direito Tributário e comecei a resolver questões.

Antes da terceira, já roncava.

Quando Orfeu chegou, lá pelas seis da manhã, encontrou Sônia sentada em minha cama sem entender porque eu dormia tão tranquilamente, com um largo sorriso nos lábios.

E que se dane a certidão positiva de efeito negativo!

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Formigando.

3 fevereiro, 2009

Sábado de sol e eu estudando.
Tinha churrasco.
Tinha chope.
Tinha samba.
Tinha rock.
Tinha cinema.
Tinha até teatro.
Mas eu estava estudando Demonstrações Contábeis.

Origens e aplicações de recursos, fluxo de caixa, valor agregado.
Chegou o domingo e, se Chico Buarque eu fosse, naturalmente me vingaria.
Mas sou Alexei José e tenho a vingança congelada, lá no fundo do freezer. Um dia eu a devoro.
Mas ainda não foi neste domingo.
E então, fui pra aula.

Domingão, das 8:30 às 17:30.
Pra mim, tá limpo. Tudo bem. Não só me acostumei a essa rotina concursal (afinal, sei que é temporal, Juvenal!) como tenho claro em minha mente que fui eu quem escolheu esse caminho.
Eu.
Por isso, saiba que não estou reclamando. Não posso. E nem é questão de poder, de ter o direito a reclamar. Eu é que não quero. Na verdade, não tenho do que reclamar. Fui eu que me meti no mundão, são minhas pernas que me levam às aulas e minha mente que luta para compreender tudo o que venho lendo, ouvindo e vendo nos últimos 3 anos.
São meus planos, aqueles que eu tracei.
O Plano C, como aprendi esses dias.

Quantas pessoas você conhece que escolheram o seu caminho?
Eu escolhi.
Não foi o acaso. Não dei uma puta sorte nem um azar fudido. Eu não tive que fazer o que faço por necessidade.
Eu simplesmente quis fazer.
Minha barriga está cheia.

Dito isso, peço que volte às primeiras frases do texto e as leia com os olhos focados num texto alegre. Se você enxerga entre as palavras aqui escritas exclamações de desilusão ou as reticências da insegurança, acredite: está fazendo uma leitura equivocada.
Não há o que se entender nas entrelinhas.
E ponto final.

O único motivo que me trouxe aqui, nas derradeiras horas da segundona, é uma historinha que não me sai da cabeça há alguns dias.
A clássica fábula da formiguinha e da cigarra, de Fontaine.
E, visto que além de inteligente foste um dia criança, sei que já identificaste quem é a formiga desse papo.
O que você talvez não tenha se dado conta é que geralmente a formiga e a cigarra são a mesma criatura.
Eis aí o grande mistério!
Ah, como queria ter agora a mente de Machado de Assis para que pudesse encher sua alma com um texto soberbo!
Mas sou Alexei José e tudo o que tenho, ofereço-te nessas pobres linhas finais: somos formigas e cigarras.
Quando formigas, trabalhamos duro para poder curtir uma de cigarra.
Quando cigarras, não queremos voltar a ser formigas.
Mas alguém precisa colocar os farelos e pequenas folhas na mesa do formigueiro.
O que nem sempre é lá muito legal de se fazer.
Pois lá no fundo, ou boiando na superfície, o que queremos é cantar.

Cantar e  cantar tudo o que vier na cabeça, até que o dia amanheça.

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Quer apostar, Mãe Diná?

6 janeiro, 2009

Quando outubro chegar, nós estaremos dizendo:

-Nossa! Esse ano passou muito rápido.

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Enquanto o pão com bife esfria.

31 dezembro, 2008

O ano chega aos 44 minutos de dezembro.

Já não espero aquele sem pulo do Ewerton nos idos de 1983 contra o Botafogo do Rio, na virada mais espetacular que já vi no futebol

-Rocha aliviou… Ewerton, de primeira, que bomba: gol!

Rapaz, foi a melhor narração que ouvi do Luciano do Valle.

-No Morumbi: São Paulo 3, Botafogo 2.

E fomos pra final.

Maldito Baltazar, artilheiro de Deus.

Já lhes contei essa história? Não, né?

Deixa pro ano que vem que essa é doída.

Fazer o que a essa altura do campeonato?

Tomar cerveja, comer paca e mentalizar objetivos, alicerces eternos das promessas que se parecem com crianças nascidas no seio da miséria africana: tem umas que vingam.

E outras não.

Das dez coisas que devo fazer no ano que vem, já tenho cinco delas cravadas na minha lista. Uma já está lá há três anos: passar numa porra dum concurso que valha a pena.

Já falei dessa história da lista das dez promessas? Aquela que deve estar sempre por perto pra que nos momentos de fraqueza seja lida? Uma lista que serve pra você não esquecer o que prometeu no começo do ano e que no final, é uma espécie de balança para que o sucesso da empreitada seja avaliada com base em dados reais?

Não?

Pois não será agora.

E vamos em frente.

Escrevo pra dizer o que todos estão dizendo ou pensando quando o ano chega às suas derradeiras horas. Se procura aqui uma leitura diferente e criativa, mude de blog. Minha mãe me chama na cozinha onde um maravilhoso pão com bife de Dona Helena me aguarda com uma suculenta camada de catupiry e a pimenta salpicada na medida exata do sabor. Meu compromisso agora é com meu estômago, não com a criatividade.

Aliás, são dois lanches.

Perder a pança, só no ano que vem. E aí, tens mais uma promessa minha para 2009. É o item 5 da listinha.

Crepúsculo de jogo, diria o Fiori.

Porra, que saudade do tempo em que ouvia os jogos no rádio com meu pai e irmão, espalhados na cama do meu velho. Eu tinha um caderno no qual anotava todas as escalações, de todos os times que jogavam contra o tricolor.

Tempo bom que não volta nunca mais, né não Thayde?

Lá se foi 2008. Estudei um bocado, me diverti pouco, bebi um pouco menos que o de sempre, fumei alguns maços a mais, não emagreci (aliás, engordei), fui pouco ao estádio, conheci pouca gente e trepei menos do que eu queria.

Mas isso não vale. Eu sempre trepo menos do que eu desejo.

Também encontrei vermes e ratos onde julgava só ter amigos mas em compensação redescobri flores onde julgava só haver espinhos.

Ganhei? Ganhei.

Perdi? Perdi.

E as emoções? Eu vivi e as dividi com amor e paixão com quem há anos e anos e anos e anos estão comigo: minha família e os velhos amigos do peito. São eles que transformam um ano insosso, inodoro e insípido num uísque escocês de 22 anos, puro malte acompanhado de alguns charutos cubanos e uma boa rodada de pôquer no meu apartamento de frente pra Paulicéia, ouvindo uns vinis do Purple, Stones, Hendrix e essa turma de delinqüentes lisérgicos.

Caros leitores e leitoras desejo a todos coragem. Eis meu único voto para o ano que nasce: coragem.

Coragem pois a rodada 2009 está pra começar, cheia de seqüências, quadras, fulls e royals. Pegue suas cartas, acomode-se na cadeira que mais lhe apetecer e esconda o seu medo (mantendo-o aceso) entre um cigarro e uma dose. E quando uma duplinha mixuruca de oitos insistir em não sair de sua mão, não vacile: blefe.

Pois só os fortes sobrevivem. E vamos ao rango.

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O livro das reflexões de um fim de ano.

19 dezembro, 2008

Prefácio

Não era bonita, mas simpática. Tinha um não sei que no olhar que transmitia uma força interior dessas que não se vê em quaisquer olhos. Senti uma ponta de inveja daquela coragem toda. Sentou-se ao meu lado junto de um amigo e reclamava de uma prova. Pelo tanto de enzimas, fórmulas e aparelhos centrífugas que mencionou no desabafo, creio que fazia faculdade de farmácia.

E ela não gostava daquilo. Nada no curso lhe dava prazer. Pelo que entendi, insistia no erro pois já havia errado antes e o pai, alheio à prática tão humana (talvez a mais humana de todas), não admitiria novos equívocos.

-Se eu não terminar essa merda, ele fica sem falar comigo de novo.

O “merda” é literal. Creio que ela gostava de manter a boca suja pois fazia largo uso de palavras como “caralho”, “filho da puta”, “porra” e conjugava o verbo “foder” em inúmeros tempos (inclusive na voz passiva). Mas convenhamos: isso tudo deixou de ser palavrão há muito tempo.

-Sabe o que eu amo? O palco.

Danou-se. A garota quer ser atriz. E falando do mundo num palco, ela passou umas duas estações de metrô. Eu ouvindo, cada vez mais atento. Então, subitamente, baixou em mim uma puta vontade de interromper a conversa e lhe dizer que eu larguei engenharia pra fazer publicidade e agora largo publicidade para ser funcionário público pois descobri que o que eu quero mesmo é ter a minha vida longe desse frenesi a mim despropositado do mundo privado capitalista “vamos-faturar-até-que-nossos-ossos-estejam-doendo” e nossa consciência entorpecida pelo tudo que compramos ao longo dessa maldita roda vida, a qual somos atirados sem dó ou piedade. E quando você decide sair, estufa o peito e se enche de coragem pra deixar tudo isso pra trás e soltar um foda-se redentor, tem gente que vira pra ti e lá do meio da roda, arremessa insultos em sua cara:

-Vagabundo!

-Fracassado!

-Covarde!

Queria ter dito pra ela buscar o que quer fazer e ir atrás disso sem dar ouvidos aos que a julgassem. É atriz que você quer ser? Vai lá, porra (um porra do Peréio, porra!)! Não porque ali tinha em mim um exemplo de sucesso pois não sou exemplo pra nada, tampouco sucesso de alguma coisa, mas porque esse é o caminho dos bem aventurados. São largos os caminhos da tentação! Sai dessa, minha filha, e vem pro caminho de quem está salvo! Vai atrás de teu público, de tuas peças, do aplauso que ecoará por todo teatro, das cochias aos camarotes.

Quem tem essa força nos olhos não pode ser vencida. Quando esse olhar perde o foco é uma derrota do mundo que sonhamos um dia ser melhor. Vá, querida desconhecida, e faça da sua vida a porra do sonho que você alimentou desde criança. E deixe ao seu pai o tempo pra ele refletir, observar, entender, voltar a sorrir e, enfim, aplaudi-la em pé e da primeira fila com a consciência de que errar é uma benção dada a todos os humanos, sem exceção.


Eu nada disse e desci na minha estação. Ainda hoje, as palavras caladas amargam em minha boca.


Meio

-E você, não vai arrumar uma namorada, não?

-Solteiro eu a incomodo?

-Não.

-Então porque a preocupação?

-Tô só perguntando. Ofendi?

-Imagina.

-E?

-Tô na boa.

-Mesmo?

-Você quer namorar comigo?

-Eu tô falando sério.

-E eu, não?

-Não.

-Não o que? Não estou falando sério ou você não quer namorar comigo?

-Os dois.


Terminou de se vestir, deu-me um rápido beijo e foi embora carregando a bolsa na mão e não no ombro, deixando-me sozinho e nu em minha cama.

Nu porém vestido.


Epílogo

Enfiado num livro de Direito Tributário, entendo um pouco mais sobre o ICMS. As páginas se sucedem calmamente, no ritmo de minha capacidade de absorção mental. De repente busco um artigo esclarecedor no Código Tributário. Entre o livro e o Código, desvio o olhar e lá estão churrascos, almoços e happy hours de fim de ano.

Dezembro é foda.


-Pra estudar então, bicho, nem te conto…

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E o Freud, explica?

15 setembro, 2008

Eu só penso em respostas.

Semana de prova não é fácil.

Verdadeiro?

Falso?

Tensão, bicho. Tensão.

Ela não sai da cabeça. Tudo que leio ganha a dimensão de uma questão. E quando não estou lendo, estou dando um tempo pra voltar à leitura.

Como agora.

Semana de prova é dureza.

Será que é essa?

Será?

Verdadeiro ou falso?

E, no final das contas, passamos a vida inteira fazendo opções assim: verdadeiro ou falso.

Mas na prova, escolher o falso no lugar do verdadeiro é só uma questão perdida. Já na vida, perde-se mais que um ponto. Bem mais.

O lance é tocar em frente, olhando pros lados, sem medo da chuva pois há de ser tudo da lei. E o gabarito a Deus pertence.

Mas que o diabo dá uns toques, isso dá.

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Blablablá blablablá blablablá.

14 agosto, 2008

Durante as Olimpíadas, sinto-me como se estivesse numa festa que não é minha. Manja aquelas festinhas que você vai porque um amigo seu conhece alguém lá que por sua vez é convidado de outro? Você chega, fica meio de lado, dando uma geral no lugar, totalmente de bico, olhando a gatinha que pede uma bebida colorida no balcão, torcendo e querendo que ela estivesse na sua.

Enfim, chega alguém que você conhece. É o futebol. Que felicidade, que felicidade! Mas falo do futebol da mulherada. Claro. O futebol masculino não é mais assim tão chegado. Andou ganhando muito dinheiro e fama, tornou-se mascarado, esqueceu-se dos velhos amigos e antigos propósitos. Confundiu as bolas e hoje anda em carros importados, com correntes de ouro penduradas no pescoço, brincos de diamante e discursos profissionais. Vive nos endereços mais chiques e só freqüenta as festas inatingíveis. Ele olha pra ti e finge que não te conhece.

E a gatinha lá, no balcão. Você convida ela pra sentar.

Olimpíadas pra mim é assim. Eu só gosto de futebol. Pode me chamar de tosco e se assim fizer, talvez esteja com a razão. Eu até vejo uns troços, mas não tem muita graça. Não fico decepcionado com a participação sempre pífia do Brasil pois, como disse, somos sempre assim. Esportivamente (e outros entes mais), o Brasil é uma vergonha do tamanho de suas dimensões territoriais. Incrível, né? O que temos além do futebol? O iatismo, o judô, o hipismo e o vôlei. Afe! Vôlei é um esporte chatíssimo. Tudo bem que o Brasil manda ver, ganha de todo mundo e que o Bernardinho é o cara. Mas o jogo é um porre. Pior que vôlei, só hipismo. Tem cabimento um playboy ficar de rolê com o cavalinho que ganhou do papai, saltando cerquinhas? Ora, vai à merda, bicho!

A gatinha do balcão, barriguinha de fora e óculos escuros, sorriso largo e acolhedor, com a bebidinha colorida já no fim. Desce dois, desce mais.

Porém, sendo chegado a uma festinha, essa eu também curto. Gosto de competições como os 100 metros rasos, as provas de salto, a natação.Outra madrugada vi esgrima e achei massa. Mas o mais massa é ver o ser humano se superar. Não me refiro a essa bateção deslavada de recordes, que pra mim cheira a gambiarra Made in China (ou vocês acham que a água das piscinas olímpicas de Pequim são formadas, apenas, por moléculas de hidrogênio e oxigênio?). Falo da superação social, se assim posso chamar. Não vou aqui dar uma de sociólogo e tal, mas quando um pobre, um humilde, um fudido vence, sempre me emociona. A garota do judô, por exemplo, que faturou o bronze. Porra! A moça tem uma vida pra lá de sacrificada, mora num casebre numa cidade satélite de Brasília e fez sei lá quantos sacrifícios pra poder estar no tatame. Tem também o cara do boxe, o outro negão do judô que vive em São Caetano (e que eu lamentavelmente não me lembro do nome), as meninas do futebol e o pessoal do atletismo e mais mil e uma histórias de pessoas que veêm no esporte, uma forma de ter a vida sonhada na infância. Isso não tem nacionalidade, não. Seja de onde for, esses atletas são parecidos. É como se viessem de uma mesma terra, de uma mesma nação. É pra eles que eu torço. Essa é a superação que emociona e que nos transforma numa torcida única e que renova em mim, não sei bem explicar o porquê, a esperança no ser humano e de que podemos vencer a mesquinharia e a indiferença dos hipócritas. O resto é efeito especial. Ou você acha que Michael Phelps existe?

Ok, gatinha do balcão, você venceu: batata frita.

Sei que olimpíada pra mim é isso. Que se dane os recordes mundiais. Não me importa se a China vence os EUA no quadro de medalhas, que o levantador da seleção de vôlei teve um filho, que o cara do handbol é maconheiro, que o outro favorito não sei da onde decepcionou, que o clima da Vila Olímpica é contagiante ou que os chineses falsificaram até a chinesinha que cantou na cerimônia de abertura dos Jogos. E eu com isso?

A gatinha do balcão se levanta pra sacar mas realmente, mas realmente eu preferia que ela estivesse…

Aos meus olhos, o importante nas Olimpíadas é a superação do ser humano como gente, capaz de vencer pelo bem e toda a inspiração que esse tipo de vitória me traz.

Além, é lógico, das bundinhas das meninas do vôlei de praia.

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