Lembro-me de um Natal em Marília num tempo em que eu ainda acreditava em Papai Noel. Sim, acreditei muito tempo que o velho batuta não era um miserável merchandising de uma marca de refrigerante ianque. Mas não se engane: não era um pequeno imbecil que corria sentar no colo de qualquer velhinho fantasiado que distribuía balas em frente a lojas com grandes promoções, entregando-lhe a lista de meus sonhos infantis. Sim, acreditava eu em Papai Noel, mas nem por isso era um pequeno trouxa. Muito menos gay.
Sempre tive o Papai Noel como um cara safo que jamais se deixava ser visto. Ele entrava nas casas, deixava os presentes embaixo da árvore e vazava sem deixar vestígios. Mesmo em minha casa que não tinha chaminé nem lareira e nem mesmo neve caindo lá fora, ele dava o seu jeito de entrar e deixar nossos pedidos. Pra mim, o Papai Noel voava sozinho a uma velocidade maior que a do Super Homem e materializava os presentes com a força de seus pensamentos. Não tinha hohoho, nem saco, nem trenó e muito menos renas.
O Papai Noel era um verdadeiro super herói.
Mas eu comecei a falar de um Natal em Marília, não foi? Pois vamos a Marília, na casa de Dona Maria, numa noite de 24 de dezembro do começo da década de oitenta. Havia um forte boato entre a primaiada que o Papai Noel finalmente daria as caras. Perceba: eu nunca havia visto Noel. Pra mim, ninguém o havia visto. Quem relatava encontros com o velhinho presenteador não dizia a verdade. Ou, na melhor das hipóteses, havia sido enganado.
-Você viu o Papai Noel?
-Vi.
-Viu nada.
-Vi sim!
-Olha meu, de duas uma: ou você é mentiroso ou muito trouxa.
O velho batuta não presenteava só os ricos e portanto tinha muito o que fazer na noite natalina. Eram muitas crianças ao redor do mundo. Acreditar que o velho batuta poderia se dar ao luxo de ficar um tempo em uma casa, festejando com uma única família, era um absurdo sem tamanho.
Mas o homem apareceu, ali, no vasto quintal da Dona Maria. Perdi a fala.
Lá estava o Papai Noel, com minha família, cercado de presentes, sentado no quintal, distribuindo embrulhos para todo mundo. Os adultos se divertiam e a criançada pirava. E eu ali, hipnotizado. Até que um primo, mais velho e mais esperto, chegou mais perto e cochichou-me ao pé do ouvido:
-Reparou que o Papai Noel tem o sapato igual ao do seu vô?
E tinha.
Mas como?
Não era possível!
Seria o Papai Noel meu próprio avô?
Franzi a sobrancelha e cocei o queixo, cofiando uma barba que ainda demoraria anos a aparecer. Sim, sim, aquela história fazia sentido, afinal, em todos os Natais estava meu avô. Mas como conseguiria ele, durante todos esses anos, sair da festa sem ser percebido, dar a volta ao mundo distribuindo presentes e voltar para mais uma cerveja e meia dúzia de piadas?
-Porra, o cara é o Papai Noel. Essas tarefas pra ele é coxinha.
Claro que meu primo não disse “porra” nem “coxinha”, mas expressões equivalentes para a época e para nossas idades. E, independente de como falou, em minha cabeça a pergunta permanecia firme como um rei mago de presépio: será que o Papai Noel era o vô Lacerda?
-Alexei!
Chamou-me o Papai Noel com um pacote em punho. Não tinha a voz parecida com a de meu vô. Era mais rouca, eu acho. Sei que quando me aproximei, assombrei-me ao dar de cara com os óculos do velho Lacerda. Meu Deus! Era meu vô! Encarei-o num misto de assombro e orgulho e perguntei, desencanado do presente que ele me estendia com um vasto sorriso atrás da barba branca de lã:
-O senhor é meu avô?
-Não. Sou o Papai Noel, menino.
-Mas eu acho que é meu vô.
-Que vô o que, garoto! Sou Papai Noel, não está vendo? Pega seu presente, anda.
-Mas e esses óculos? E o sapato? O sapato é igual ao do meu avô.
Papai Noel ficou mudo. Meu primo mais velho e mais esperto riu triunfante. As crianças arregalaram os olhos atônitas. Alguém precisava tirar o velho Noel daquela sinuca.
Não me lembro muito bem como aquilo terminou. Até hoje minha família lembra do episódio entre risos e galhofas e assim é uma das maneiras que meu avô continua presente em todos nossos Natais. Todos.
Desde aquele Natal em Marília, no quintal da Dona Maria, o Papai Noel não mais participou de minhas festas. E se você quer saber da verdade, nem fez falta.
Afinal, quem teve um vô Lacerda sabe que o Papai Noel pra ser bacana, mas bacana mesmo, tem que comer muito, mas muito arroz e feijão.
E tomar uma boa cachacinha.
