Arquivo da categoria ‘Gabarito’

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A metade cheia.

21 dezembro, 2009

Logo no primeiro curso que fiz no mundão, o professor de estatística e matemática financeira, um sujeito bonzinho que vivia deixando nas entrelinhas que viver em Curitiba era melhor que São Paulo, contou uma história dum cara que havia sido um dos seus melhores pupilos. O pequeno gafanhoto era engenheiro e, segundo contou o benevolente mestre, simplesmente desencanou de estudar estatística. Tinha visto a matéria na faculdade e, no final das contas, conta pra engenheiro é coxinha.
O cara ficou por um ponto.
Faltou-lhe justamente uma questão de estatística.
Lembro-me que pensei, assim que acabou a narrativa do professor, sujeito fraterno e ser humano evoluído, que o tal sujeito era uma besta.
Um burro.
Engenheiro, é certo, mas burro.
Acontece.

No caminho que trilho há quase 4 anos, ouvi várias e várias outras histórias dessas. Fulano ficou por um ponto, siclano também rodou por um ponto e até o beltrano, lembra?, exemplo de caderno bem organizado e que tinha todas a jurisprudência do STF na ponta língua, não passou por faltar-lhe um ponto.
Todo mundo no mundão conhece uma história dessa.
Ninguém as conta em primeira pessoa.
Pois aí vai: eu fiquei por um ponto. Acertei questões pra cacete na prova pra Auditor da Receita, gabaritei três provas, quebrei as provas de contabilidade e tributário, mas não consegui o mínimo em Economia.
Faltou exatamente um ponto.
O resultado final não saiu mas das estimativas que vi sobre a nota mínima de classificação para a próxima fase eu passo com largas sobras.
Mas sem o mínimo em Economia, nada feito.
Rodei.

Curioso é que, passado o abalo natural e a frustração dilacerante que passei nos últimos dias, sinto-me bem. Não digo que é uma sensação de dever cumprido, mas que ele está prestes a sê-lo.
Estou perto.
Estou muito perto e chego a sentir o cheiro da repartição.
E saber disso é bom.
Saber que a distância é longa, mas não é infinita, é bom.
Você pode dizer que é uma desculpa pelo fracasso.
Pode até ser.

Mas hoje eu tenho uma certeza inabalável, uma convicção que estremece catedrais de que o fim da trilha está próximo e que logo estarei instalado estavelmente em minha vitória.

E quem sabe, numa mesa ao lado de fulano, beltrano e siclano.

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Espertíssimo.

2 dezembro, 2008

Tomei um nabo na prova de Analista de Comércio Exterior de modo que não vou mais trabalhar com meu irmão no Ministério do Desenvolvimento. Levar chocolate no mundão não é novidade pra mim, mas esse doeu. Não tanto pela reprovação, mas pelo desempenho. Fui mal mesmo. Poderia aqui buscar explicações até certo ponto cabíveis para o fracasso retumbante, mas poupar-lhe-ei o saco. Fui mal e sigamos em frente.

O desempenho pífio me injuriou. Mais: entristeceu-me. Por isso não mais escrevi. Afastei-me quase que por completo dos estudos e da escrita por duas semanas ou mais, as quais passei com minha família. Pensei um bocado em tudo, conversei com os meus e cheguei à conclusão que não estudo com qualidade. Estudo paca, mas não estudo corretamente. Então veio a questão: o que devo fazer?

Dissecando o problema a fundo, percebi um dos meus erros está na concentração. Distrair-me é como roubar doce de criança. Não, é mais fácil. A criança irá chorar desesperada logo que sua guloseima não mais estiver em suas mãos enquanto eu só me darei conta do furto quando a digestão do larápio se fizer tão pronta que só o encontrarei no banheiro, com a descarga em andamento.

Uma merda essa história de ser distraído.

Disse que não mais escrevi desde que me ferrei na prova, mas trata-se de uma meia verdade. Descolei um freela numa agência que me paga a quantia suficiente pra eu quitar minhas contas, garantir alguns cursos e ainda sobra um troco pra eu tomar uma gelada num rolê despretensioso pela Paulicéia querida. Meu horário é bem flexível dando-me a possibilidade de conciliar o estudo com os textos publicitários que um dia, sei que conseguirei me livrar para sempre. A agência é especializada em produtos farmacêuticos de forma que hoje vendo a cura.

“Você é a doença e eu sou a cura”. Lembra dessa?

E então cheguei na agência, abri meu laptop e com toda a simpatia que Deus me deu, perguntei sorridente ao diretor de criação:

-O que temos, chefia?

-Temos uma campanha de lançamento para um produto de higiene íntima feminino. O briefing ta na sua mesa.

Trocando em miúdos, estou escrevendo títulos publicitários para sabonete que a mulherada usa pra  lavar a xe… bom,  pra bom entendedor meia palavra basta. E já que és bom entendedor, deves ter compreendido onde me meti. Toda a atenção é pouca para tratar do assunto. Qualquer colocação mal feita pode causar um problemão. E quando se trata da parte íntima das mulheres, colocações descuidadas podem gerar um grande incômodo. É preciso estar atento a cada palavra datilografada.

E aí é que está toda a ironia: escrevo para vender sabonete que deixa a periquita da mulherada brilhando mas se bobear,quem leva o ferro sou eu.

Rapaz, ser distraído está se tornando um problemão.

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Transitado em julgado.

9 janeiro, 2008

No ano corrente, todos os sonhos ficam suspensos até a aprovação final.

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Cadê o Pitta quando se precisa dele?

7 novembro, 2007

Não há concurseiro, vivo ou morto, que não tenha ouvido a Fábula da Fila, na qual a empreitada de quem presta concurso público é comparada a tal figura, tão presente na vida do paulistano. Conforme os concursos vão rolando e a galera vai passando, a fila anda. Até que chega a sua hora. Mas pra isso, você não pode sair da fila e pra nela permanecer, deve continuar estudando. Sempre. Como uma espécie de Jó do mundão, o concurseiro permanece paciente, fiel ao seu propósito, esquivando-se das tentações que pintam aqui e acolá.

Largos são os caminhos que levam a tentação!

Pra permanecer na fila, tem que ser perseverante. Perseverança, aliás, é uma das características básicas para que uma pessoa entre no mundão. A outra é saco, mas isso é papo pra outro Fragmento. O de hoje é, na verdade, relacionado a um dos últimos concursos que prestei. Lembra? Eram 16389 candidatos para 20 vagas. Eu fiquei em 845.

845° lugar.

Há algumas formas diferentes de se interpretar este Fragmento. Um otimista dirá sorridente que eu estou entre os 5% dos candidatos mais bem preparados. Um pessimista vai dizer em tom ranzinza que eu deveria ter escrito logo sobre essa história de ter saco. Já o realista, dispensando a bituca num piparote, afirmará sem dó:

-Essa fila é grande pacarai!

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A seco.

18 janeiro, 2007

Nos últimos dois fins de semana, fiz o concurso para fiscal do ISS da Prefeitura Municipal de São Paulo. Lá, já em atividade no cargo em questão, tenho um amigo que já passou pelos perrengues que só o fantástico mundo do concurso público oferece aos seus habitantes. Ele é funcionário público concursado há alguns anos e, em nossa última conversa, disse-me que há em sua repartição uma mesa vaga.

-Rapaz, eu fico imaginando que você vai estar nela depois desse concurso.

Caros amigos, belas amigas, devo confessar que sonhei com a ocasião. Não digo que sonhasse todas as noites pois, a bem da verdade, não me vi na mesa citada pelo meu amigo uma única vez durante meus sonos. Sonhava acordado, enquanto estudava, lutando comigo mesmo nas trincheiras da concentração e da realidade dos livros que a minha frente se posicionavam, contra os devaneios de um sucesso improvável. Diante meus olhos, Direito Tributário; em minha mente, eu e meu amigo trabalhando lado a lado e depois, no fim do expediente, afrouxando a gravata num botequim qualquer pelos arredores da Prefeitura.

Veio as avaliações e hoje tive acesso ao gabarito final das quatro provas.

A mesa não será minha, tampouco acompanharei meu amigo na cerveja do happy hour.
Na verdade, depois da prova, ao invés de uma merecida gelada eu ganhei foi só uma porção.

De nabo.

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O poder da mente.

18 outubro, 2006

Há alguns dias, chamei minha consciência de lado e lhe pedi férias. Ela titubiou apontou as apostilas e livros e disse:
-E quanto a isso tudo aí, rapazinho?
São só 15 dias. Depois volto bombando.
-Mesmo?
Prometo.
-Quais são os planos?
Reveilon na Bahia.
Ela coçou o queixo e arrumou o óculos que escorregava pelo seu nariz aquilino (minha consciência tem o nariz aquilino, é bem magra, tem os olhos negros e o cabelo comprido, liso. Ela sempre veste roupas sóbrias, tradicionais como as que minha professora de literatura do colegial usava). Olhou para as apostlias, depois pra mim, depois pro Guia de Praias 2005 que estava aberto na ponta da mesa, bem no mapa da Bahia. Sorriu amiga, fraterna e confirmou.
-Tudo bem.
E foi fatal:
-Mas eu vou junto.

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