Arquivo da categoria ‘Dia a dia ordinário’

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Dando a vontade.

4 setembro, 2011

1.

-Deu?

-Deu nada.

Afundaram-se num suspiro simultâneo. E então veio o silêncio, profundo porém breve, interrompido bruscamente pelo belo sorriso de Adriana. Ela segurou firme as mãos de Alencar e levantou-o do meio fio num único puxão.

-Desencana coração. Vamos tomar uma cervejinha, vai?

-Será que nunca vai dar?

-Se todas as vezes que não der você ficar assim eu não quero mais brincar.

-O que eu posso fazer, coração? Fico na maior expectativa, todas às vezes.

-E daí? Eu também. Mas se não deu, o que é que a gente pode fazer?

-Eu queria comprar aquela rua pra você.

-Eu sei, coração, mas sem ela estou muito feliz.

-Pra mandar ladrilhar.

-Como?

-Ladrilhar. Lembra daquela velha canção?

-Não.

-Esquece, vai.

-Ah! Não fica assim, coração. Vamos tomar uma cervejinha, vai? Eu pago.

-Onde?

-Tem um pessoal no Bar do Carioca.

-Eu não gosto daquele bar…

-Quer outro? Eu vou onde você quiser, coração.

-Vamos no Carioca mesmo, vai? Tá aqui do lado…

Adriana caiu nos braços de Alencar e olhando-o com seu sorriso iluminado, cochichou-lhe ao pé do ouvido como se lhe fizesse um carinho:

-Coracao, você é bem chatinho, né?

-Por quê?

-Por nada, nada…

-Agora fala!

Nada falou, apenas lascou-lhe um vasto e apaixonado beijo.

-Agora eu gostei.

-Então vamos logo, coração, que beijar me dá uma sede…

2.

-Deu?

-Ah…

-Vai, fala Lu: deu ou não?

-Dei.

-Deu?!

-Fala baixo. Quer que a mesa toda ouça?

-Deu?

-Dei pô! E daí? Você não daria?

-Não sei…

-Não sabe?! Tá bom, tá bom. Você fala isso porque não estava com ele ali, com ele falando aqueles troços no seu ouvido, dando aqueles beijos, me pegando daquele jeito, me apertando…

-Ele beija bem?

-Beija.

-Que mais?

-Como “que mais”?

-Ué? Que mais? Tipo… que mais, ué?

-“Que mais” nada, oras.

-Eu acho ele muito gostoso, sabia?

-Tá vendo?! Sei que você não dava pra ele, viu? Sei que você ia resisitir, sei…

-Ah, não sei… eu não sou de ficar dando, né?

-E você acha que eu sou?

-Eu não disse isso. Vai, me conta mais. E aí?

-E aí o que?

-Foi bom?

-Pô! Foi, né?

-Bom, né? Você tá feliz?

-Sei lá viu Aninha, sei lá. Eu acho que não devia ter dado, acho mesmo. Acho que o cara vai querer sair comigo mais duas ou três vezes, me comer de novo e pronto. Vai cair fora.

-E daí? Aproveite enquanto dure. Não tem um poema que diz isso?

-“Que seja eterno enquanto dure”.

-Isso mesmo. Aproveita. Ele faz tudo certinho?

-Ô!

-Delícia, hein?

-Pena que não vai durar. Ele é tão legal. Um fofo. Mas safado.

-Será?

-Certeza. Vai sair fora num piscar de olhos.

-Será?

-Claro. Já me comeu mesmo. Homens, querida, homens. O cara me come aqui e mal fechou o zíper já quer comer outra acolá.

-Mas também não é assim, né Lu?

-Eu conheço esse tipo de homem pelo olhar, Aninha. Mas vou te falar: da próxima vez, não me come. Eu não dou.

-Sei…

-Mas vamos mudar de assunto. Vou mudar de apartamento.

-Achei que fossemos falar mulheres…

-Você, hein Aninha?

3.

-Deu?

-Acho que não.

-É mesmo?

-Cara, não foi fácil. Acho que não deu mesmo. Passa a cerveja, por favor?

-Mas você foi mal mesmo? Digo muito mal?

-Não sei, mas não acho que fui tão bem quanto precisava.

-Quem disse?

-O que?

-Que você não foi tão bem quanto precisava?

-Eu, ué?

-Mas você não sabe.

-Claro que sei: não deu.

-Quando sai o resultado?

-Semana que vem.

-E você já desisitiu.

-Cara, quando você faz uma prova, sabe que precisa de X pontos. Você sai da prova e sabe se vai dar ou não, não sabe?

-Às vezes.

-Pois é. Desta vez eu sei: não deu.

-Quer apostar?

-Mas o que é que deu em você, cara?

-Eu acredito em você.

-Ah, vai dar meia hora de bunda vai….

4.

-Deu?

-Deu nada.

-Mas ela não foi na sua casa, não foi?

-E daí?

-E daí que você e ela em sua casa, mais ninguém… pô Edgard, é caixa!

-Mas não foi.

-Nada?

-Nos beijamos e tal e só.

-Que trouxa.

-Como?

-Você, pô! Puta trouxa, porra! Pega a cerveja pra mim, vai?

-O que você queria que eu fizesse?! Estruprasse a garota?

-Estuprasse.

-Cê acha? Eu estaria em cana agora!

-Não burro. É estuprar.

-Mano, cê acha que eu sou alguma espécie de marginal?

-Marginal eu não sei, mas analfabeto certamente.

-Como?

-Esquece.

-O que você queria que eu fizesse?

-A coisa certa.

-E qual era?

-Comê-la, pô!

-Você acha que todas as garotas do mundo são como as vagabundas que você cata.

-Devagar, cara. Minhas mulheres não são vagabundas.

-Tá cara, tá bom. Vamos mudar de assunto?

-Por quê? Você quer falar de homem?

-Cara, como você é chato!

-E você anda esquisito…

 

5.

-Deu?

-Na pinta.

-É mesmo?

-Deixa eu confeirir…

-Desta vez dei a maior sorte.

-Por quê?

-Porque todas as vezes que fico, sempre sobra pra mim.

-Ah é? Que coisa, bicho. Eu nunca fico no prejuízo. Na verdade, às vezes até fica a grana a mais na mesa.

-Imagina! Eu sempre saio em débito. Essas histórias são de doer… neguinho vai saindo, saindo, saindo e quem sobra sempre leva ferro.

-Não hoje meu caro. Está certinho.

-Deu mesmo?

-Tô dizendo.

-Mas que beleza. Só faltava mesmo aquela sua amiga me dar bola.

-Quem?

-Aquela gostosinha que tava do lado da Aninha.

-A Lúcia?

-Essa!

-Meu irmão, essa não dá pra ninguém, viu?

-Não é possível. Deve dar.

-Dá nada. A Lúcia é certinha. Eu acho que ela até voa.

-Será?

-Ô! Mora no sexto andar de um prédio que não tem elevador.

-Mas não tem escada?

-Seis andares, fumando daquele jeito que ela fuma? Duvido que ela suba meia dúzia de degraus..

-É… deve voar mesmo.

- Mas quié boa, é.

-Saideira?

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Angústia

25 agosto, 2011

Empurrou os óculos com a ponta do dedo até a base do nariz e coçou a testa. Sentia uma angústia a lhe consumir, pouco a pouco, como aquela ave que come o fígado de Prometeu, desafeto do todo poderoso Zeus. Mas ele, ali, diante o monitor de um PC já ultrapassado pelos novos processadores ultrasônicos dos malditos tempos modernos, nada havia feito demais. A bem da verdade, não havia feito nada. E se nem uma faísca roubara, porque aquela sensação lhe desencadeava uma absoluta sensação de impotência e profunda tristeza?

O telefono tocou e ele deixou tocar. Que se dane. Não queria falar com ninguém. Não agora. Queria poder não ver, não falar, não ouvir, não atender ou ser atendido por qualquer pessoa. Era da solidão, total e absoluta que ele ansiava mais que tudo naquele momento. Sumir do mapa, não para sempre, mas ao menos durante aquele período em que a ave de rapina do Olimpo lhe esfurunçava a alma. Mas quem se importa? A campainha do telefone toca novamente.

Pensou em atender mas não se mexeu. Desconectou-se do e-mail após verificar que não havia nenhuma correspondência em sua caixa postal, salvo anúncios de promoções imperdíveis – as quais ele perdia todas. Olhou o relógio no canto do monitor e percebeu que tinha, no máximo, mais cinco minutos antes da saída. O mundo lá fora, alheio ás suas perturbações, continuava a girar sem querer saber quem está bem, quem não. Ele nada mais era que uma engrenagem, uma peça de fácil reposição. Se ali resolvesse ficar por uma semana, sem se mexer, talvez ninguém notasse. Talvez pudesse ficar por mais de uma semana. Talvez.

O telefone voltou a tocar. O corpo involuntariamente fez movimentos de abandono da cadeira. Ele os ignorou. Talvez fosse algo importante, ao menos a insistência o levava a essa óbvia conclusão. Dane-se. Importante agora era ele e seus problemas. Voltou a se recostar calmamente no assento e mais uma vez ajeitou os óculos com a ponta do dedo. Apertar suas astes era mais importante que atender a uma ligação e já que não arrumaria nada naquele instante, por que se preocupar com o telefone? Que tocasse até perder a fala.

Estava na hora de ir mas ele não foi. Depois de tantos anos pontuais, não seria um atraso que mancharia sua reputação. Eles poderiam viver sem ele. Quem sabe até se sairiam melhor na sua ausência? Julgou ser exatamente isso que aconteceria se permanecesse ali, imóvel, na frente do monitor do seu velho PC. Quando enfim se mexesse e tomasse seu rumo rotineiro, já seria tarde demais. Seu lugar estaria ocupado. Sentiu que se quisesse vencer, aquele era o momento. Era preciso tomar seu rumo.

-Que se dane.

Levantou-se da cadeira e caminhou até a janela. Fazia um sol estrondoso e uma velhinha atravessava a rua a passos de tartaruga, protegendo-se do sol com uma sombrinha. Era muita petulância, pensou. Uma velha dessas que mal consegue andar, afrontar todo o poder do astro rei com uma sombrinha miserável de ambulante de porta de metrô. Aquela cena o irritou profundamente e ele desejou que a pobre senhora fosse atropelada. Ele, no vigor e na força da mocidade vivia um momento infernal que mal lhe possibilitava sair de sua escrivaninha enquanto aquela maldita velha encarava o mundo e o sol com seus passos diminutos e uma sombrinha esfarrapada.

-Velha petulante!

De repente ele voltou para a mesa, sentou-se resoluto em escrever um e-mail endereçado a toda sua lista no qual falaria as mil e duzentas verdades que jurava trazer engasgadas no peito, que há muito precisavam ser escarradas pra fora de seu espírito enfermo. Começaria pela arrogância dessa gente mesquinha que pensa que muito da vida sabe e que pode sair por aí julgando e classificando as pessoas como quem mete uma etiqueta num produto. Bonita, feio, útil, capaz, competente, reciclável, filho da puta. Sim, começaria pelos filhos da puta. Seria daquele diretorzinho de merda o primeiro endereço que seu e-mail bateria à porta. Decidido, quis abrir o Word mas o cursor não se mexeu na tela do monitor de seu PC ancião. Não eram só seus óculos que precisavam de um ajuste. O mouse encardido e sua jovem vida também.

E o telefone voltou a tocar.

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Na padoca.

16 fevereiro, 2006

-Açúcar ou adoçante?
-Puro.
-Puro?
-É. Puro.
-Pouca gente toma puro, né?
-Não sei. Eu gosto de puro. O café é uma bebida amarga, é pra ser amarga, entende?
-Não sei não…
-É como uísque. Você gosta de uísque com guaraná?
-Não bebo.
-Então pega o açúcar e divirta-se.

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