Saio da Biblioteca Nacional, onde passei a manhã estudando Economia e as malditas curvas IS-ML, sob uma fina garoa que ao menor vacilo enxarca-lhe dos pés à cabeça. Contorno apressado a gigantesca bola branca que o Niemeyer colocou no meio da praça para ser um museu na vã esperança de não me molhar. A chuva aperta e não tenho guarda-chuvas, combinação perfeita para a correria que empenho até ponto de ônibus em frente a Catedral, na Esplanada dos Ministérios. Mal me acomodo ofegante entre o povo que ali se abrigava da chuva e vejo um senhor de vasto bigode pendurado de ponta cabeça na marquise.
-Zé?
Ele levou a ponta da asa aos lábios fazendo-me sinal de silêncio.
-Fala baixo, cabra. Se não, me acham.
Diminuí o tom, transformando minha fala num sussurro:
-Mas o que faz você aqui, senador? Sua casa não é aquela pica entre as meias bolas, quase no fim da Esplanada?
-É.
Ele acomodou melhor as asas outrora esmagadas por uma gorda que saiu para pegar seu ônibus que acabara de chegar. E então prosseguiu com um acentuado sotaque maranhense. Ou seria do Amapá? Não sei, sinceramente. Não compreendo muito bem essa forma de expressão:
-Lá estou há décadas, desde que era um camundonguinho inofensivo que vivia de raspas e restos deixadas por ratos maiores. Hoje é minha casa e lá mando. Ninguém nela age, pensa, governa, vota ou pega sobra alguma sem minha benção.
-E o que faz o senhor aqui, velha ratazana? Não estará o senhor em horário de serviço? Não há o que ser feito em sua casa?
Ele riu alto, não sei se pelo tratamento que lhe deferi ou se por eu falar em trabalho, mas logo abafou o riso com uma tosse rasgada, mostrando os caninos pontiagudos. Pigarreou e limpou o bigode com a ponta das asas escrotas. Olhou para os lados desconfiado e pediu que eu me aproximasse. Recuperou o tom covarde da voz e falou-me então ao pé do ouvido, fazendo-me sentir seu hálito infernal:
-Não sabe quem está na cidade?
Fiz que não com a cabeça.
-Aquele tal comedor de morcego.
E concluiu com a voz trêmula:
-O excelentíssimo senhor Osbourne.
A chuva parou e as sombrinhas se fecharam. O sinal ficou vermelho e eu virei-me para acompanhar um grupo de pessoas que atravessava a mega avenida de sei lá quantas pistas do Eixo Monumental. Entre elas, dois garotos de camisas pretas estampadas com a carona alucinada do Ozzy Osbourne. Voltei-me para o velho senador mas ele já não estava lá. Havia voado por sobre a Biblioteca Nacional, rumo Asa Sul.
Sei não. Acho que esse morcego nem o Ozzy pega.



