Posts de setembro \19\UTC 2011

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Quarta-feira, no Morumbi.

19 setembro, 2011

A verdadeira cilada é a que estão nos armando, tricolores, para quarta-feira.

Hoje eu ouvi nego falando que não devolveremos os cinco sofridos no primeiro turno, mas três dá pra fazer sem problemas. Tranquilo. Outro disse que o São Paulo tem tradição em derrubar técnicos do Parque São Jorge. Vi também, numa mesa redonda de ontem, um torcedor rival dizer que no Majestoso quem vem melhor vence. Sempre, frisou. E em sua ótica, o São Paulo, hoje, é muito mais time que o Corinthians. Há ainda os que especulam uma possível volta de Luís Fabiano.

Então é isso: derrubaremos o Tite, jogaremos como nunca e venceremos por três a zero. No mínimo. E com gols de Luís Fabiano. É bom demais. É uma cilada.

Calma. Trata-se de um Clássico que não ganhou a alcunha de Majestoso à toa. As variáveis que envolvem uma peleja dessas são infinitas. Não é possível que vamos cair na mesma armadilha. De novo não, porra! Ninguém vence de véspera e não acho que preciso alertar qualquer brasileiro sobre essa história. A euforia antecipada não nos cai bem. Vencer é preciso, é esperado, é vital, é o direito ao sarro, é a vingança esperada. E volta e meia nos sentimos em sua plena degustação. Porém, ensinam-nos a sapiência anônima popular brasileira que se tem um prato pra ser devorado frio, esse tal prato é a vingança. Se estão nos servindo agora, há três dias da peleja, é porque está fumegando. Não queimemos a língua.

Vamos vencer? Claro. Mas fiquemos espertos, tricolores. É preciso estar atento, absolutamente concentrado no Majestoso, em sua história, em seu retrospecto. Todo mundo. Do roupeiro ao cambista, do tricolor das cativas ao pobre diabo da portaria do prédio com radinho no ouvido. Que nenhum tricolor vacile. Assim, a vitória não nos escapará. Com gol de falta. Do Ceni.

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O Judas que não trai e a besta assombrada.

12 setembro, 2011

Impregnado por um Nelson Rodrigues que ocupou-me boa parte do domingo e ainda agora se mete em meus pensamentos escrevo com uma ponta de inveja do soberbo pernambucano radicado no Rio por saber que jamais escreverei como ele. Tricolor até a medula, Nelson tinha nas palavras a perfeita direção de um atirador de elite de filmes de 007 ou Jason Bourne. Nunca terei mira tão apurada. Você que só conhece Nelson das bonitinhas produções globais, das ordinárias pornochanchadas dos anos 70 e 80 ou das citações habilitadas em seu Facebook, faça um favor a si mesmo (ou mesma, visto que Nelson deve ser lido pelas mulheres, principalmente as que não gostam de apanhar): vá conhecê-lo do jeito certo, verdadeiro, inexpugnável. Leia um livro dele. Um livro.

Mas amigos, amigas, quando meti o dedo no ON de minha máquina aqui toda estilosa com uma maçã estampada em sua traseira, ao mesmo tempo em que os outros dedos impacientes já se agitavam sobre o teclado encardido, eu não tinha a intenção de falar-lhes sobre o domingo mas sim sobre sua véspera noturna e afortunadamente sem chuva pois, esta sim, me mostrou algo inédito, coisa que jamais vi ou ouvi ou melhor dizendo, senti: o estado bruto, absolutamente primitivo de uma coisa.

Antes, uma breve introdução. Certa vez, um amigo me contou uma viagem que fez à Patagônia. De toda a aventura, ele se atinha ao momento em que desceu do barco que o levava num passeio entre as geleiras, foi até uma delas e arrancou-lhe uma pedra de gelo, colocando-a no copo e lhe aplicando uma merecida dose de  blue label que era pra combinar com o clima local e com a cor das montanhes gélidas do fim do mundo. Esse meu amigo, é bom que se diga, faz questão de que tudo esteja certo, em perfeita sintonia. Além de ser muito rico.

Pois bem, como disse, ele passou mais de uma hora contando essa ocasião, a do uísque tomado com o mais puro gelo da América. Pois digam-me: por mais que ele tenha tentado prolongar o momento em goles minúsculos, quanto tempo ele levou? Um minuto? Dez? Que seja meia hora, exageremos. E foi isso, exatamente esse breve período que  meu amigo narrava empolgado, ignorando todos os outros quase vinte dias que passara viajando pela Argentina e Chile. Confesso: achei-o uma besta.

Sim, uma besta. Numa viagem de tamanha amplitude geográfica não seria possível que nada mais teria valido a pena, ao menos para que figurasse em meio suas narrativas. Eu perguntava: e Bariloche? E Mendonza? E Santiago? E os Andes? E os vinhos? E o tango? E o Maradona? E ele respondia com indisfarçável indiferença: “batutinha”.

Volto a minha humilde persona e ao sábado passado, antes de ontem, quando fui ao show do Judas Priest. Notem: não sou marinheiro de primeira viagem. Já vi sei lá quantos shows com bandas de todos os tamanhos, do humilde Culto Metálico no salão de festas do Instituto de Jaú ao terafuck Iron Maiden no Morumbi. Mas nada foi como sábado, com o Judas, quando tive a experiência  de presenciar algo espetacularmente não misturado a nada numa época em que o grande lance é absorver tendências e miscingenar tudo o que for possível. Aquilo que vi foi o Heavy Metal em sua mais primitiva forma.

O som rápido, as guitarras em V, as roupas de couro pretas e repletas de tachinhas, a bateria com dois bumbos, a voz estridente em gritos profundos e os jatos de fogo que volta e meia jorravam dos cantos do palco não eram novidade aos meus olhos. Mas ali, combinados nas mãos desses ingleses da pesada, ganhavam uma outra dimensão. Ele não foi o melhor show que já vi  e tampouco Judas Priest é meu som preferido. Mas esses coroas me mostraram algo em estado bruto, absolutamente imaculado. Eu nunca havia tido esse tipo de sensação. Na verdade a tive no domingo pós show, ainda com a boca amarrada pelos exageros típicos de uma noite de rock, assim que abri os olhos e os estatelei no teto. Pensei com ares de filósofo modernista ressacado: taqueopariu, que parada véio!

Se um dia, quando velho e curvado estiver em minha cadeira de balanço ouvindo um bom vinil dos anos 70 e um jovem me perguntar sobre os shows que vi em minha época de fartas doses e tragadas inflamadas, falarei deste. Passarei rapidamente por Iron Maiden, Metallica, AC/DC, Motorhead, Kiss ou mesmo do grande e insuperável Ozzy Osbourne para finalmente chegar ao show do Judas Priest onde passarei um bom e saudoso tempo, buscando em cada palavra, quem sabe, o gosto de uma vida bem vivida.

É gente boa: eu também sou uma besta. Uma profunda e irreparável besta.

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Dando a vontade.

4 setembro, 2011

1.

-Deu?

-Deu nada.

Afundaram-se num suspiro simultâneo. E então veio o silêncio, profundo porém breve, interrompido bruscamente pelo belo sorriso de Adriana. Ela segurou firme as mãos de Alencar e levantou-o do meio fio num único puxão.

-Desencana coração. Vamos tomar uma cervejinha, vai?

-Será que nunca vai dar?

-Se todas as vezes que não der você ficar assim eu não quero mais brincar.

-O que eu posso fazer, coração? Fico na maior expectativa, todas às vezes.

-E daí? Eu também. Mas se não deu, o que é que a gente pode fazer?

-Eu queria comprar aquela rua pra você.

-Eu sei, coração, mas sem ela estou muito feliz.

-Pra mandar ladrilhar.

-Como?

-Ladrilhar. Lembra daquela velha canção?

-Não.

-Esquece, vai.

-Ah! Não fica assim, coração. Vamos tomar uma cervejinha, vai? Eu pago.

-Onde?

-Tem um pessoal no Bar do Carioca.

-Eu não gosto daquele bar…

-Quer outro? Eu vou onde você quiser, coração.

-Vamos no Carioca mesmo, vai? Tá aqui do lado…

Adriana caiu nos braços de Alencar e olhando-o com seu sorriso iluminado, cochichou-lhe ao pé do ouvido como se lhe fizesse um carinho:

-Coracao, você é bem chatinho, né?

-Por quê?

-Por nada, nada…

-Agora fala!

Nada falou, apenas lascou-lhe um vasto e apaixonado beijo.

-Agora eu gostei.

-Então vamos logo, coração, que beijar me dá uma sede…

2.

-Deu?

-Ah…

-Vai, fala Lu: deu ou não?

-Dei.

-Deu?!

-Fala baixo. Quer que a mesa toda ouça?

-Deu?

-Dei pô! E daí? Você não daria?

-Não sei…

-Não sabe?! Tá bom, tá bom. Você fala isso porque não estava com ele ali, com ele falando aqueles troços no seu ouvido, dando aqueles beijos, me pegando daquele jeito, me apertando…

-Ele beija bem?

-Beija.

-Que mais?

-Como “que mais”?

-Ué? Que mais? Tipo… que mais, ué?

-“Que mais” nada, oras.

-Eu acho ele muito gostoso, sabia?

-Tá vendo?! Sei que você não dava pra ele, viu? Sei que você ia resisitir, sei…

-Ah, não sei… eu não sou de ficar dando, né?

-E você acha que eu sou?

-Eu não disse isso. Vai, me conta mais. E aí?

-E aí o que?

-Foi bom?

-Pô! Foi, né?

-Bom, né? Você tá feliz?

-Sei lá viu Aninha, sei lá. Eu acho que não devia ter dado, acho mesmo. Acho que o cara vai querer sair comigo mais duas ou três vezes, me comer de novo e pronto. Vai cair fora.

-E daí? Aproveite enquanto dure. Não tem um poema que diz isso?

-“Que seja eterno enquanto dure”.

-Isso mesmo. Aproveita. Ele faz tudo certinho?

-Ô!

-Delícia, hein?

-Pena que não vai durar. Ele é tão legal. Um fofo. Mas safado.

-Será?

-Certeza. Vai sair fora num piscar de olhos.

-Será?

-Claro. Já me comeu mesmo. Homens, querida, homens. O cara me come aqui e mal fechou o zíper já quer comer outra acolá.

-Mas também não é assim, né Lu?

-Eu conheço esse tipo de homem pelo olhar, Aninha. Mas vou te falar: da próxima vez, não me come. Eu não dou.

-Sei…

-Mas vamos mudar de assunto. Vou mudar de apartamento.

-Achei que fossemos falar mulheres…

-Você, hein Aninha?

3.

-Deu?

-Acho que não.

-É mesmo?

-Cara, não foi fácil. Acho que não deu mesmo. Passa a cerveja, por favor?

-Mas você foi mal mesmo? Digo muito mal?

-Não sei, mas não acho que fui tão bem quanto precisava.

-Quem disse?

-O que?

-Que você não foi tão bem quanto precisava?

-Eu, ué?

-Mas você não sabe.

-Claro que sei: não deu.

-Quando sai o resultado?

-Semana que vem.

-E você já desisitiu.

-Cara, quando você faz uma prova, sabe que precisa de X pontos. Você sai da prova e sabe se vai dar ou não, não sabe?

-Às vezes.

-Pois é. Desta vez eu sei: não deu.

-Quer apostar?

-Mas o que é que deu em você, cara?

-Eu acredito em você.

-Ah, vai dar meia hora de bunda vai….

4.

-Deu?

-Deu nada.

-Mas ela não foi na sua casa, não foi?

-E daí?

-E daí que você e ela em sua casa, mais ninguém… pô Edgard, é caixa!

-Mas não foi.

-Nada?

-Nos beijamos e tal e só.

-Que trouxa.

-Como?

-Você, pô! Puta trouxa, porra! Pega a cerveja pra mim, vai?

-O que você queria que eu fizesse?! Estruprasse a garota?

-Estuprasse.

-Cê acha? Eu estaria em cana agora!

-Não burro. É estuprar.

-Mano, cê acha que eu sou alguma espécie de marginal?

-Marginal eu não sei, mas analfabeto certamente.

-Como?

-Esquece.

-O que você queria que eu fizesse?

-A coisa certa.

-E qual era?

-Comê-la, pô!

-Você acha que todas as garotas do mundo são como as vagabundas que você cata.

-Devagar, cara. Minhas mulheres não são vagabundas.

-Tá cara, tá bom. Vamos mudar de assunto?

-Por quê? Você quer falar de homem?

-Cara, como você é chato!

-E você anda esquisito…

 

5.

-Deu?

-Na pinta.

-É mesmo?

-Deixa eu confeirir…

-Desta vez dei a maior sorte.

-Por quê?

-Porque todas as vezes que fico, sempre sobra pra mim.

-Ah é? Que coisa, bicho. Eu nunca fico no prejuízo. Na verdade, às vezes até fica a grana a mais na mesa.

-Imagina! Eu sempre saio em débito. Essas histórias são de doer… neguinho vai saindo, saindo, saindo e quem sobra sempre leva ferro.

-Não hoje meu caro. Está certinho.

-Deu mesmo?

-Tô dizendo.

-Mas que beleza. Só faltava mesmo aquela sua amiga me dar bola.

-Quem?

-Aquela gostosinha que tava do lado da Aninha.

-A Lúcia?

-Essa!

-Meu irmão, essa não dá pra ninguém, viu?

-Não é possível. Deve dar.

-Dá nada. A Lúcia é certinha. Eu acho que ela até voa.

-Será?

-Ô! Mora no sexto andar de um prédio que não tem elevador.

-Mas não tem escada?

-Seis andares, fumando daquele jeito que ela fuma? Duvido que ela suba meia dúzia de degraus..

-É… deve voar mesmo.

- Mas quié boa, é.

-Saideira?

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