Era sábado.
Fazia sol.
Fazia um puta sol.
Sem piano, a praça Dom José Gaspar abrigava um samba de responsa regado a muita cerveja gelada bebida sem dó por um povo animado que se espalhava por dezenas de mesas.
Há poucos metros dali, algumas dezenas de pessoas assistiam aula de Direito Previdenciário.
Advinha onde eu estava?
Advinhe onde eu queria estar?
Pula.
Era sábado.
A sala apertada como no sete e meio do Eu Quero Ser John Malkovitch, repleta de alunos amontoados por todos os cantos.
Tudo fechado e o ar condicionado não dando conta do recado.
Ao meu lado, uma gorda simpática.
Sala apertada, gorda simpática. Combinação indigesta.
Na minha frente, um cara fedido.
Fedido mesmo.
Atrás, um tiozinho careca cheio de piadas tolas e um cara que, embora errasse todas as questões, julgava-se o próprio auditor da Receita Federal.
A gorda se mexia pra caramba. Perceba: nada tenho contra gordas. Mas nada tenho a favor de gordas cheia de simpatia e movimentos em uma sala minúscula. Volta e meia ela esbarrava seus braços carregados de banha e pulseiras em mim.
-Ai, desculpa.
-Imagina.
-Estou muito desajeitada hoje. Você deve estar me odiando…
Dou um breve sorriso. Melhor a gorda ser apenas simpática e não leitora de mentes.
Volto à aula e lá na frente, um carioca divertido com a cara do Ritchie “Menina Veneno” fala sobre contribuições previdenciárias.
É um puta rolo.
Passa uma mosca pela décima vez zunindo em minha orelha. Eu sei que não é a mim que ela quer, mas o fedidão da minha frente está se abanando sem parar.
O abanador é a mosca na sopa da mosca.
A minha é a gorda varejeira.
Outra piada zune atrás de mim. O burro relincha outra resposta equivocada e desta vez, culpa a questão.
-Essa banca examinadora não sabe formular perguntas.
Fecho os olhos e só penso numa coisa: “Deus tem que estar me vendo agora”.







