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Domingo.

11 dezembro, 2011

Quando dá quase onze da manhã, capricho uma dose e sigo alimentando-a, com gelo e uísque, até que saia o almoço. Nesse intervalo, leio o jornal, acesso a internet ou bato umas linhas nesse Word que não me deixa escrever errado sobre linhas tortas: as linhas são geometricamente perfeitas e os erros grifados para que não me escapem. Mas deixo-os livres para infestarem meus pensamentos. Errar é meu sobrenome. Meu nome, já não me lembro.

Enfim, seja lá onde eu estiver nessa casa que me tem toda a infância gravada em cada canto, sinto o cheiro da comida sendo preparada no fogão. Mais uma dose? É claro. É claro que eu estou afim.

Se o cheiro do rango que enche minha boca d’água me encontra em qualquer lugar da casa, a Gal Costa que soa no radio-cd da cozinha só me pega quando estou nas imediações do fogão. E creia, é muito bom. Gosto da voz dela mas, a essa altura, já não sei se pelo dom vocal da nobre baiana, se por ouvi-la por toda minha vida em meio as cantaroladas da minha mãe, sua fã absoluta, ou se pelos efeitos do camarada blended scotch whisky Chivas Regal.

É isso que rola agora aqui em casa, aqui em Jaú nesse domingo de sol radiante e céu de Brigadeiro: cheiro de boa comida, o dueto Gal Costa e dona Helena e eu, já meio baludo pelo iscótchi on the rocks, com a fome de uma legião romana.

Cara, vou te dizer: momentos como estes são os que fazem dessa bostinha de cidade um lugar inesquecível.

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Vinho bom é o escocês.

26 novembro, 2011

Não me lembro bem onde foi, tampouco quando, mas lembro-me bem da cara do sujeito. Barba bem feita, cabelos amoldados por um pouco de gel, óculos caros e roupas de grife. Era ele um publicitário com sei lá quantos prêmios e, embora a profissão e o jeito indicasse o contrário, era um autêntico boa praça. E foi ele quem me disse certa vez em que eu receberia em meu apartamento uma bela garota, pra que não me preocupasse com a escolha do vinho, assunto que jamais dominei.

-No final das contas, dizia-me com ares de grande conhecedor dos mistérios da humanidade, o que interessa é impressionar. Compre belas taças e um decanter. Com esses apetrechos, até Sangue de Boi soará como o mais refinado vinho francês.

Foi o que fiz e, creiam, acabei me dando bem algumas vezes. E de tão bem, deitei-me na cama dos presunçosos quando, num jantarzinho maneiro com uma gatinha que curtia vinhos, pus à mesa o mais puro Chapinha em meu decanter refinado. A noite não teve um final feliz.

Nunca mais a vi. A última notícia que tive dela foi no dia seguinte ao fatídico jantar quando, com uma voz nada amistosa, ela me ligou:

-Minha língua está azul, seu idiota.

Texto escrito especialmente para o blog Wine Fine Zone.

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Quarta-feira, no Morumbi.

19 setembro, 2011

A verdadeira cilada é a que estão nos armando, tricolores, para quarta-feira.

Hoje eu ouvi nego falando que não devolveremos os cinco sofridos no primeiro turno, mas três dá pra fazer sem problemas. Tranquilo. Outro disse que o São Paulo tem tradição em derrubar técnicos do Parque São Jorge. Vi também, numa mesa redonda de ontem, um torcedor rival dizer que no Majestoso quem vem melhor vence. Sempre, frisou. E em sua ótica, o São Paulo, hoje, é muito mais time que o Corinthians. Há ainda os que especulam uma possível volta de Luís Fabiano.

Então é isso: derrubaremos o Tite, jogaremos como nunca e venceremos por três a zero. No mínimo. E com gols de Luís Fabiano. É bom demais. É uma cilada.

Calma. Trata-se de um Clássico que não ganhou a alcunha de Majestoso à toa. As variáveis que envolvem uma peleja dessas são infinitas. Não é possível que vamos cair na mesma armadilha. De novo não, porra! Ninguém vence de véspera e não acho que preciso alertar qualquer brasileiro sobre essa história. A euforia antecipada não nos cai bem. Vencer é preciso, é esperado, é vital, é o direito ao sarro, é a vingança esperada. E volta e meia nos sentimos em sua plena degustação. Porém, ensinam-nos a sapiência anônima popular brasileira que se tem um prato pra ser devorado frio, esse tal prato é a vingança. Se estão nos servindo agora, há três dias da peleja, é porque está fumegando. Não queimemos a língua.

Vamos vencer? Claro. Mas fiquemos espertos, tricolores. É preciso estar atento, absolutamente concentrado no Majestoso, em sua história, em seu retrospecto. Todo mundo. Do roupeiro ao cambista, do tricolor das cativas ao pobre diabo da portaria do prédio com radinho no ouvido. Que nenhum tricolor vacile. Assim, a vitória não nos escapará. Com gol de falta. Do Ceni.

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O Judas que não trai e a besta assombrada.

12 setembro, 2011

Impregnado por um Nelson Rodrigues que ocupou-me boa parte do domingo e ainda agora se mete em meus pensamentos escrevo com uma ponta de inveja do soberbo pernambucano radicado no Rio por saber que jamais escreverei como ele. Tricolor até a medula, Nelson tinha nas palavras a perfeita direção de um atirador de elite de filmes de 007 ou Jason Bourne. Nunca terei mira tão apurada. Você que só conhece Nelson das bonitinhas produções globais, das ordinárias pornochanchadas dos anos 70 e 80 ou das citações habilitadas em seu Facebook, faça um favor a si mesmo (ou mesma, visto que Nelson deve ser lido pelas mulheres, principalmente as que não gostam de apanhar): vá conhecê-lo do jeito certo, verdadeiro, inexpugnável. Leia um livro dele. Um livro.

Mas amigos, amigas, quando meti o dedo no ON de minha máquina aqui toda estilosa com uma maçã estampada em sua traseira, ao mesmo tempo em que os outros dedos impacientes já se agitavam sobre o teclado encardido, eu não tinha a intenção de falar-lhes sobre o domingo mas sim sobre sua véspera noturna e afortunadamente sem chuva pois, esta sim, me mostrou algo inédito, coisa que jamais vi ou ouvi ou melhor dizendo, senti: o estado bruto, absolutamente primitivo de uma coisa.

Antes, uma breve introdução. Certa vez, um amigo me contou uma viagem que fez à Patagônia. De toda a aventura, ele se atinha ao momento em que desceu do barco que o levava num passeio entre as geleiras, foi até uma delas e arrancou-lhe uma pedra de gelo, colocando-a no copo e lhe aplicando uma merecida dose de  blue label que era pra combinar com o clima local e com a cor das montanhes gélidas do fim do mundo. Esse meu amigo, é bom que se diga, faz questão de que tudo esteja certo, em perfeita sintonia. Além de ser muito rico.

Pois bem, como disse, ele passou mais de uma hora contando essa ocasião, a do uísque tomado com o mais puro gelo da América. Pois digam-me: por mais que ele tenha tentado prolongar o momento em goles minúsculos, quanto tempo ele levou? Um minuto? Dez? Que seja meia hora, exageremos. E foi isso, exatamente esse breve período que  meu amigo narrava empolgado, ignorando todos os outros quase vinte dias que passara viajando pela Argentina e Chile. Confesso: achei-o uma besta.

Sim, uma besta. Numa viagem de tamanha amplitude geográfica não seria possível que nada mais teria valido a pena, ao menos para que figurasse em meio suas narrativas. Eu perguntava: e Bariloche? E Mendonza? E Santiago? E os Andes? E os vinhos? E o tango? E o Maradona? E ele respondia com indisfarçável indiferença: “batutinha”.

Volto a minha humilde persona e ao sábado passado, antes de ontem, quando fui ao show do Judas Priest. Notem: não sou marinheiro de primeira viagem. Já vi sei lá quantos shows com bandas de todos os tamanhos, do humilde Culto Metálico no salão de festas do Instituto de Jaú ao terafuck Iron Maiden no Morumbi. Mas nada foi como sábado, com o Judas, quando tive a experiência  de presenciar algo espetacularmente não misturado a nada numa época em que o grande lance é absorver tendências e miscingenar tudo o que for possível. Aquilo que vi foi o Heavy Metal em sua mais primitiva forma.

O som rápido, as guitarras em V, as roupas de couro pretas e repletas de tachinhas, a bateria com dois bumbos, a voz estridente em gritos profundos e os jatos de fogo que volta e meia jorravam dos cantos do palco não eram novidade aos meus olhos. Mas ali, combinados nas mãos desses ingleses da pesada, ganhavam uma outra dimensão. Ele não foi o melhor show que já vi  e tampouco Judas Priest é meu som preferido. Mas esses coroas me mostraram algo em estado bruto, absolutamente imaculado. Eu nunca havia tido esse tipo de sensação. Na verdade a tive no domingo pós show, ainda com a boca amarrada pelos exageros típicos de uma noite de rock, assim que abri os olhos e os estatelei no teto. Pensei com ares de filósofo modernista ressacado: taqueopariu, que parada véio!

Se um dia, quando velho e curvado estiver em minha cadeira de balanço ouvindo um bom vinil dos anos 70 e um jovem me perguntar sobre os shows que vi em minha época de fartas doses e tragadas inflamadas, falarei deste. Passarei rapidamente por Iron Maiden, Metallica, AC/DC, Motorhead, Kiss ou mesmo do grande e insuperável Ozzy Osbourne para finalmente chegar ao show do Judas Priest onde passarei um bom e saudoso tempo, buscando em cada palavra, quem sabe, o gosto de uma vida bem vivida.

É gente boa: eu também sou uma besta. Uma profunda e irreparável besta.

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Dando a vontade.

4 setembro, 2011

1.

-Deu?

-Deu nada.

Afundaram-se num suspiro simultâneo. E então veio o silêncio, profundo porém breve, interrompido bruscamente pelo belo sorriso de Adriana. Ela segurou firme as mãos de Alencar e levantou-o do meio fio num único puxão.

-Desencana coração. Vamos tomar uma cervejinha, vai?

-Será que nunca vai dar?

-Se todas as vezes que não der você ficar assim eu não quero mais brincar.

-O que eu posso fazer, coração? Fico na maior expectativa, todas às vezes.

-E daí? Eu também. Mas se não deu, o que é que a gente pode fazer?

-Eu queria comprar aquela rua pra você.

-Eu sei, coração, mas sem ela estou muito feliz.

-Pra mandar ladrilhar.

-Como?

-Ladrilhar. Lembra daquela velha canção?

-Não.

-Esquece, vai.

-Ah! Não fica assim, coração. Vamos tomar uma cervejinha, vai? Eu pago.

-Onde?

-Tem um pessoal no Bar do Carioca.

-Eu não gosto daquele bar…

-Quer outro? Eu vou onde você quiser, coração.

-Vamos no Carioca mesmo, vai? Tá aqui do lado…

Adriana caiu nos braços de Alencar e olhando-o com seu sorriso iluminado, cochichou-lhe ao pé do ouvido como se lhe fizesse um carinho:

-Coracao, você é bem chatinho, né?

-Por quê?

-Por nada, nada…

-Agora fala!

Nada falou, apenas lascou-lhe um vasto e apaixonado beijo.

-Agora eu gostei.

-Então vamos logo, coração, que beijar me dá uma sede…

2.

-Deu?

-Ah…

-Vai, fala Lu: deu ou não?

-Dei.

-Deu?!

-Fala baixo. Quer que a mesa toda ouça?

-Deu?

-Dei pô! E daí? Você não daria?

-Não sei…

-Não sabe?! Tá bom, tá bom. Você fala isso porque não estava com ele ali, com ele falando aqueles troços no seu ouvido, dando aqueles beijos, me pegando daquele jeito, me apertando…

-Ele beija bem?

-Beija.

-Que mais?

-Como “que mais”?

-Ué? Que mais? Tipo… que mais, ué?

-“Que mais” nada, oras.

-Eu acho ele muito gostoso, sabia?

-Tá vendo?! Sei que você não dava pra ele, viu? Sei que você ia resisitir, sei…

-Ah, não sei… eu não sou de ficar dando, né?

-E você acha que eu sou?

-Eu não disse isso. Vai, me conta mais. E aí?

-E aí o que?

-Foi bom?

-Pô! Foi, né?

-Bom, né? Você tá feliz?

-Sei lá viu Aninha, sei lá. Eu acho que não devia ter dado, acho mesmo. Acho que o cara vai querer sair comigo mais duas ou três vezes, me comer de novo e pronto. Vai cair fora.

-E daí? Aproveite enquanto dure. Não tem um poema que diz isso?

-“Que seja eterno enquanto dure”.

-Isso mesmo. Aproveita. Ele faz tudo certinho?

-Ô!

-Delícia, hein?

-Pena que não vai durar. Ele é tão legal. Um fofo. Mas safado.

-Será?

-Certeza. Vai sair fora num piscar de olhos.

-Será?

-Claro. Já me comeu mesmo. Homens, querida, homens. O cara me come aqui e mal fechou o zíper já quer comer outra acolá.

-Mas também não é assim, né Lu?

-Eu conheço esse tipo de homem pelo olhar, Aninha. Mas vou te falar: da próxima vez, não me come. Eu não dou.

-Sei…

-Mas vamos mudar de assunto. Vou mudar de apartamento.

-Achei que fossemos falar mulheres…

-Você, hein Aninha?

3.

-Deu?

-Acho que não.

-É mesmo?

-Cara, não foi fácil. Acho que não deu mesmo. Passa a cerveja, por favor?

-Mas você foi mal mesmo? Digo muito mal?

-Não sei, mas não acho que fui tão bem quanto precisava.

-Quem disse?

-O que?

-Que você não foi tão bem quanto precisava?

-Eu, ué?

-Mas você não sabe.

-Claro que sei: não deu.

-Quando sai o resultado?

-Semana que vem.

-E você já desisitiu.

-Cara, quando você faz uma prova, sabe que precisa de X pontos. Você sai da prova e sabe se vai dar ou não, não sabe?

-Às vezes.

-Pois é. Desta vez eu sei: não deu.

-Quer apostar?

-Mas o que é que deu em você, cara?

-Eu acredito em você.

-Ah, vai dar meia hora de bunda vai….

4.

-Deu?

-Deu nada.

-Mas ela não foi na sua casa, não foi?

-E daí?

-E daí que você e ela em sua casa, mais ninguém… pô Edgard, é caixa!

-Mas não foi.

-Nada?

-Nos beijamos e tal e só.

-Que trouxa.

-Como?

-Você, pô! Puta trouxa, porra! Pega a cerveja pra mim, vai?

-O que você queria que eu fizesse?! Estruprasse a garota?

-Estuprasse.

-Cê acha? Eu estaria em cana agora!

-Não burro. É estuprar.

-Mano, cê acha que eu sou alguma espécie de marginal?

-Marginal eu não sei, mas analfabeto certamente.

-Como?

-Esquece.

-O que você queria que eu fizesse?

-A coisa certa.

-E qual era?

-Comê-la, pô!

-Você acha que todas as garotas do mundo são como as vagabundas que você cata.

-Devagar, cara. Minhas mulheres não são vagabundas.

-Tá cara, tá bom. Vamos mudar de assunto?

-Por quê? Você quer falar de homem?

-Cara, como você é chato!

-E você anda esquisito…

 

5.

-Deu?

-Na pinta.

-É mesmo?

-Deixa eu confeirir…

-Desta vez dei a maior sorte.

-Por quê?

-Porque todas as vezes que fico, sempre sobra pra mim.

-Ah é? Que coisa, bicho. Eu nunca fico no prejuízo. Na verdade, às vezes até fica a grana a mais na mesa.

-Imagina! Eu sempre saio em débito. Essas histórias são de doer… neguinho vai saindo, saindo, saindo e quem sobra sempre leva ferro.

-Não hoje meu caro. Está certinho.

-Deu mesmo?

-Tô dizendo.

-Mas que beleza. Só faltava mesmo aquela sua amiga me dar bola.

-Quem?

-Aquela gostosinha que tava do lado da Aninha.

-A Lúcia?

-Essa!

-Meu irmão, essa não dá pra ninguém, viu?

-Não é possível. Deve dar.

-Dá nada. A Lúcia é certinha. Eu acho que ela até voa.

-Será?

-Ô! Mora no sexto andar de um prédio que não tem elevador.

-Mas não tem escada?

-Seis andares, fumando daquele jeito que ela fuma? Duvido que ela suba meia dúzia de degraus..

-É… deve voar mesmo.

- Mas quié boa, é.

-Saideira?

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Angústia

25 agosto, 2011

Empurrou os óculos com a ponta do dedo até a base do nariz e coçou a testa. Sentia uma angústia a lhe consumir, pouco a pouco, como aquela ave que come o fígado de Prometeu, desafeto do todo poderoso Zeus. Mas ele, ali, diante o monitor de um PC já ultrapassado pelos novos processadores ultrasônicos dos malditos tempos modernos, nada havia feito demais. A bem da verdade, não havia feito nada. E se nem uma faísca roubara, porque aquela sensação lhe desencadeava uma absoluta sensação de impotência e profunda tristeza?

O telefono tocou e ele deixou tocar. Que se dane. Não queria falar com ninguém. Não agora. Queria poder não ver, não falar, não ouvir, não atender ou ser atendido por qualquer pessoa. Era da solidão, total e absoluta que ele ansiava mais que tudo naquele momento. Sumir do mapa, não para sempre, mas ao menos durante aquele período em que a ave de rapina do Olimpo lhe esfurunçava a alma. Mas quem se importa? A campainha do telefone toca novamente.

Pensou em atender mas não se mexeu. Desconectou-se do e-mail após verificar que não havia nenhuma correspondência em sua caixa postal, salvo anúncios de promoções imperdíveis – as quais ele perdia todas. Olhou o relógio no canto do monitor e percebeu que tinha, no máximo, mais cinco minutos antes da saída. O mundo lá fora, alheio ás suas perturbações, continuava a girar sem querer saber quem está bem, quem não. Ele nada mais era que uma engrenagem, uma peça de fácil reposição. Se ali resolvesse ficar por uma semana, sem se mexer, talvez ninguém notasse. Talvez pudesse ficar por mais de uma semana. Talvez.

O telefone voltou a tocar. O corpo involuntariamente fez movimentos de abandono da cadeira. Ele os ignorou. Talvez fosse algo importante, ao menos a insistência o levava a essa óbvia conclusão. Dane-se. Importante agora era ele e seus problemas. Voltou a se recostar calmamente no assento e mais uma vez ajeitou os óculos com a ponta do dedo. Apertar suas astes era mais importante que atender a uma ligação e já que não arrumaria nada naquele instante, por que se preocupar com o telefone? Que tocasse até perder a fala.

Estava na hora de ir mas ele não foi. Depois de tantos anos pontuais, não seria um atraso que mancharia sua reputação. Eles poderiam viver sem ele. Quem sabe até se sairiam melhor na sua ausência? Julgou ser exatamente isso que aconteceria se permanecesse ali, imóvel, na frente do monitor do seu velho PC. Quando enfim se mexesse e tomasse seu rumo rotineiro, já seria tarde demais. Seu lugar estaria ocupado. Sentiu que se quisesse vencer, aquele era o momento. Era preciso tomar seu rumo.

-Que se dane.

Levantou-se da cadeira e caminhou até a janela. Fazia um sol estrondoso e uma velhinha atravessava a rua a passos de tartaruga, protegendo-se do sol com uma sombrinha. Era muita petulância, pensou. Uma velha dessas que mal consegue andar, afrontar todo o poder do astro rei com uma sombrinha miserável de ambulante de porta de metrô. Aquela cena o irritou profundamente e ele desejou que a pobre senhora fosse atropelada. Ele, no vigor e na força da mocidade vivia um momento infernal que mal lhe possibilitava sair de sua escrivaninha enquanto aquela maldita velha encarava o mundo e o sol com seus passos diminutos e uma sombrinha esfarrapada.

-Velha petulante!

De repente ele voltou para a mesa, sentou-se resoluto em escrever um e-mail endereçado a toda sua lista no qual falaria as mil e duzentas verdades que jurava trazer engasgadas no peito, que há muito precisavam ser escarradas pra fora de seu espírito enfermo. Começaria pela arrogância dessa gente mesquinha que pensa que muito da vida sabe e que pode sair por aí julgando e classificando as pessoas como quem mete uma etiqueta num produto. Bonita, feio, útil, capaz, competente, reciclável, filho da puta. Sim, começaria pelos filhos da puta. Seria daquele diretorzinho de merda o primeiro endereço que seu e-mail bateria à porta. Decidido, quis abrir o Word mas o cursor não se mexeu na tela do monitor de seu PC ancião. Não eram só seus óculos que precisavam de um ajuste. O mouse encardido e sua jovem vida também.

E o telefone voltou a tocar.

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Do dia em que vi o poderoso senador fugir do velho comedor de morcegos.

5 abril, 2011

Saio da Biblioteca Nacional, onde passei a manhã estudando Economia e as malditas curvas IS-ML, sob uma fina garoa que ao menor vacilo enxarca-lhe dos pés à cabeça. Contorno apressado a  gigantesca bola branca que o Niemeyer colocou no meio da praça para ser um museu na vã esperança de não me molhar. A chuva aperta e não tenho guarda-chuvas, combinação perfeita para a correria que empenho até ponto de ônibus em frente a Catedral, na Esplanada dos Ministérios. Mal me acomodo ofegante entre o povo que ali se abrigava da chuva e vejo um senhor de vasto bigode pendurado de ponta cabeça na marquise.

-Zé?

Ele levou a ponta da asa aos lábios fazendo-me sinal de silêncio.

-Fala baixo, cabra. Se não, me acham.

Diminuí o tom, transformando minha fala num sussurro:

-Mas o que faz você aqui, senador? Sua casa não é aquela pica entre as meias bolas, quase no fim da Esplanada?

-É.

Ele acomodou melhor as asas outrora esmagadas por uma gorda que saiu para pegar seu ônibus que acabara de chegar.  E então prosseguiu com um acentuado sotaque maranhense. Ou seria do Amapá? Não sei, sinceramente. Não compreendo muito bem essa forma de expressão:

-Lá estou há décadas, desde que era um camundonguinho inofensivo que vivia de raspas e restos deixadas por ratos maiores. Hoje é minha casa e lá mando. Ninguém nela age, pensa, governa, vota ou pega sobra alguma sem minha benção.

-E o que faz o senhor aqui, velha ratazana? Não estará o senhor em horário de serviço? Não há o que ser feito em sua casa?

Ele riu alto, não sei se pelo tratamento que lhe deferi ou se por eu falar em trabalho, mas logo abafou o riso com uma tosse rasgada,  mostrando os caninos pontiagudos. Pigarreou e limpou o bigode com a ponta das asas escrotas. Olhou para os lados desconfiado e pediu que eu me aproximasse. Recuperou o tom covarde da voz e falou-me então ao pé do ouvido, fazendo-me sentir seu hálito infernal:

-Não sabe quem está na cidade?

Fiz que não com a cabeça.

-Aquele tal comedor de morcego.

E concluiu com a voz trêmula:

-O excelentíssimo senhor Osbourne.

A chuva parou  e as sombrinhas se fecharam. O sinal ficou vermelho e eu virei-me para acompanhar um grupo de pessoas que atravessava a mega avenida de sei lá quantas pistas do Eixo Monumental. Entre elas, dois garotos de camisas pretas estampadas com a carona alucinada do Ozzy Osbourne. Voltei-me para o velho senador mas ele já não estava lá. Havia voado por sobre a Biblioteca Nacional,  rumo Asa Sul.

Sei não. Acho que esse morcego nem o Ozzy pega.

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Toca um Ozzy dubão aí, fio!

24 fevereiro, 2011

Dei uma limpada no controle remoto. Uma limpada daquelas. De acordo. Com álcool apropriado e o caramba. Agora, todos os botões funcionam. Até os que não uso. Pra dar uma testada na máquina, zappiei em alta velocidade pela televisão, meio sem rumo. De repente, passo por um noticiário que diz algo sobre um assalto na Avenida Jabaquara. Freio, volto uns dois canais e paro em frente a imagem da avenida. Os guardas desviavam o trânsito que ficou atolado em frente à cena do crime. Parece que até a Santa Cruz tinha carro parado. Isso dá  duas estações de metrô. É carro paca.
De cara, sei que é aqui perto. A câmara foi abrindo. Um estacionamento, um supermercado, um posto BR. Taqueopá bicho, o assalto foi no supermercado aqui do lado! Num que eu vou às vezes. No Hirota. Pode crer?
Estaciono o controle no sofá e escuto.

Vixe Maria, teve tiro e o cacete! Dois feridos. Já hospitalizados e em recuperação, segundo a bela repórter. Ela já foi namorada de um amigo. Gente boa. Dava a notícia com a voz firme, séria, num misto de informação e preocupação. E tudo sem um milímetro de sotaque. Boa repórter, viu Rollers?
Não sei quem se feriu, sei que não foi o segurança. Esse eu vi, ao fundo, enquanto um policial era entrevistado. Sei quem é o figura. Meio bonachão, manja? Eu sempre achei que o Hirota deveria ter samurais como seguranças. Ninguém rouba um samurai. Ninguém mata um samurai, só outro samurai. E samurais, como todos sabem, não são ladrões. E tem toda aquela história da espada. Quando se rouba um samurai, ele não mata o infrator. Dá-lhe uma lição. Um samurai corta a mão do gatuno, como ensinou o velho e bom Hamurabi. Na reincidência, amputava uma perna. Se além de gatuno, o fora da lei ainda fosse um desses sujeitos do mal, capava-lhe num ágil e cirúrgico golpe,  logo de cara, que é pra ficar esperto.

Bastava um samurai, um. Mas não. Colocam um gordão, brasuca até a medula, sem nem um estingue sequer. Vai proteger a freguesia como? Com a simpatia?

Não era pra eu estar lá, então sem drama. O que eu tinha que fazer no Hirota, fiz ontem. E já estava atrasado. Por que que a gente é assim?

O lance é que eu estava aqui no exato momento do tiroteio, a um quarteirão da cena do crime. E soube do rolo todo pela TV.

Essa cidade é muito grande, bicho. Às vezes, dá até medo.

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War Pigs.

15 setembro, 2010

No computador, rolava Angela RoRo. Arrotou. Divertindo-se com a própria porquice, soltou uma sequência de arrotos no ritmo do bolero. Do banheiro, um grito femino interrompe a melodia com o poder da TPM:

-Pára porcão!

Riu. Houve uma época em que cantava Mr. Crowley arrotando. Inteirinha. Quando a conheceu, no Morrinson Bar da Vila Mada, já era o maior arrotador da turma. Todo churrasco, a rapaziada se derretia de rir com suas performances. Ela também. Bons tempos.

Então, começaram a namorar. A graça acabou.

Com o mouse, buscou a pasta Mestre Osbourne. Play. Virou os quatro dedos restantes da Coca-Cola que já esquentava ao lado do teclado e começou a arrotar a diabólica introdução de Mr. Crowley.

Ao fundo, uma porta se abre.

Não demorou para que cheiro de merda invadisse todo o quarto.

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No meio do caminho, havia um brigadeiro.

24 agosto, 2010

Permitam-me uma breve historinha baseada em fatos reais. Serei breve, prometo. Nada. Prometo porra nenhuma. Vou escrever até onde julgar necessário pois há tempos nada escrevo e sinto saudades daqui. Se você não, desculpe a franqueza, mas vá para o twitter.

Meu domingo assim terminou: meu time toma de três a zero do mais odioso dos seus rivais e o que eu queria muito que acontecesse, não aconteceu. Espalho-me no sofá e com uma boa dose de tristeza no peito, avisto três brigadeiros em cima da mesa deixados lá por uma bela amiga. Estico a mão no sentido da caixinha dessas guloseimas, mas a direção do meu braço é abruptamente mudada pelo telefone que toca do outro lado da mesinha. É um diretor de arte com quem faço alguns freelas. Deu tudo errado. O cara não conseguiu entregar as peças que combinamos e nosso cliente, um cara que presta serviços de informática, estava furioso. Ligo pra ele. Ouço uma pá. Tento contornar um problema que também é meu mas não foi por mim provocado. Quando desligo o telefone, tomo uma decisão fatal: vou dormir pra que esse domingo logo termine.

Mas, já dizia o Vanzolinni (talvez eu não tenha prestado a devida atenção) que “os pecados do domingo quem paga é a segunda-feira”. E ela chegou sem cerimônia como se a semana toda fosse dela, entrando pelo meu quarto vestida de um dia ensolarado, de céu azul loco, mano, e buzinas na rua. Nada é mais revoltante que uma segunda ensolarada querendo se passar por sexta-feira. Levanto-me e ao invés da rádio e as novidades do dia que começa, coloco um Sinatra pra ver se espanto aquela sensação de segunda-fracasso que me impregna da sola do meu Havaiana azul ao último fio de cabelo. Estudo, bebo café, estudo, bebo café. Toca o telefone. É o tal cliente da informática. Ele diz mais uma pá. Sei que ele tem a razão, mas vamos devagar, não? Não. Ele pisa fundo e acabamos discutindo.

Toca a campainha. É o seu Wilson, o simpático crioulo de cabelos brancos que vem buscar a doação mensal que faço ao Pequeno Ser do Amor, uma instituição que cuida de crianças cegas. Porém, devo confessar, que foi mais pelo nome da entidade que pelas suas boas ações que resolvi colaborar, doando-lhe 10 suadas pilas todos os meses. Não dá pra não ajudar uma instituição com esse nome. Não acho minha carteira mas sim meu cartão de crédito. Desço, explico pro seu Wilson que vou ter que sacar a grana e ele, com um sorriso inapropriado para uma segunda-feira ensolarada, diz que tudo bem:

-Vou pegar outras doações aqui por perto e volto em meia hora.

Queria, mesmo e do fundo de meu coração, ter metade da felicidade que o sorriso de seu Wilson esbanjava. O banco estava lotado, talvez nem precisasse isso dizer pois sagaz que és tu leitor e leitora, acho que já tiveram tal dedução antes que eu inciasse o parágrafo. Creio que todas as velhinhas da zona sul estavam nessa agência. A fila não anda e elas não conseguem fazer o que querem. Há poucos funcionários para ajudá-las e elas vão se aglomerando e reclamando, com cada vez mais ênfase, da demora e daquela maldita tecnologia que só complica as coisas. Quando me dou conta, parece que não estou mais numa agência bancária mas sim em meio uma revolta da terceira idade contra o desevolvimento tecnológico, numa espécie Balaiada Senil encabeçada pelo incofidente grisalho que traz os óculos presos por uma cordinha ao peito e um monte de papel dobrado no bolso da frente de sua camisa azul. Torço, rezo, faço promessas a dezenas de santos para que ninguém comigo puxe conversa. Ali, o silêncio era minha melhor companhia Mas, é segunda-feira e não sei se pelo dia, se por meu santo ser fraco ou se pelo safado estar de férias, puxaram. Duas senhoras de uns, sei lá, 450 anos. Elogiando o Datena e metendo a boca no Lula, na Dilma, no Serra, no Kassab e, pra finalizar, na Marta:

-Uma prostituta, Deus que me perdoe falar.

-Mas a Marta nem está mais aí?

-Mas é uma vagabunda.

Calo-me. Pra elas, aquela fila tinha uma culpada e que, curiosamente, não era a Marta: era comunista da Dilma.

-Você sabia que ela já foi sequestradora? Vê se pode!

Dou um sorrisinho amarelo pra tentar manter a educação que mamãe fez de tudo para que eu aprendesse mas quem me conhece sabe que ela não foi lá muito feliz em sua missão. Dilma sequestradora e Serra ratão. Estamos bem.

A fila não anda. Há na tecnologia algo de misterioso, de incompreensível para pessoas de certa idade. Uma coisa de Deus. Ou do Cão, vai saber? Mas vamos andando que se ficar aqui por um décimo do tempo que perdi na fila, creia, escreverei parágrafos que nem um Saramago, de volta à terra mundana numa ressussitação colorida e olfativa de Garcia Marquez conseguiria fazer maior (preste bem atenção: eu disse maior, não melhor).

Volto pra casa e seu Wilson já estava lá, em frente ao meu prédio. Pago, recebo os cumprimentos em meio um sincero sorriso e caminho para o elevador. Trombo na passagem, um japonês chatíssimo, cúrintianu que me dá uma enchida de saco. Penso em mandá-lo à merda e falar, sinceramente, o que acho dele, da sua mulher bucho e de seu filho idiota. Calo-me e com a melhor cara que pude fazer aquela hora da segunda, digo sem um decibel de simpatia na voz:

-Hum-hum. Desculpa, mas eu tô com pressa.

Acho a porra da carteira em cima da mesa, assim que abro a porta. Como não a vi? A manhã passa e vem a tarde e o telefone toca. É um amigo que me pergunta se sei algo sobre o show do Rammestein. Enfim uma boa prosa! Conversamos e tal e quando desligo o telefone, lembro-me da pessoa que me mostrou a banda germânica pela primeira vez. É um puta amigo meu. Ligo pra ele. Quero convidá-lo prai vir ao show. Ele atende com voz estranha e me cumprimenta sem o entusiasmo que lhe é peculiar. Pergunto se está tudo bem e ele, sem rodeios, arremata da entrada da pequena área num sem pulo que doeu-me a alma:

-Meu pai morreu na quinta passada. Pode?

Pode. Mas ainda não terminou. Havia muita segundona pra rolar. Recebo outro telefonema, desta vez de uma garota para quem fiz um trabalho há algumas semanas, pechinchando o valor cobrado. Fico puto, mas me contenho. Não dá pra perder mais uma. Perdi o que queria, perdi o jogo, perdi a paciência, perdi o diretor de arte, perdi o pai de um amigo. Não vou dar desconto porra nenhuma. Discutimos. Perdi a cliente.

15 minutos depois, tomo um esporro de uma amiga com quem me encontraria e não posso por causa do maldito freela atrasado. Ela tem razão e só escuto. Ela pára de me bater pelo telefone e diz que tudo bem. Não está tudo bem, eu sei. Era melhor que continuasse a me bater do que mostrar aquela clemência. Sinto-me mal. Já lhe dei dezenas de balões e aquele era mais um. Merda.

A noite chega e com ela a madruga e não consigo mais estudar. Na verdade, foi uma segunda de pouco estudo mas abandono tudo, acendo um cigarrinho e ligo a TV no 43. É hora do House. A TV está fora do ar. Corro pra cama, cubro-me até a cabeça e peço aos Céus que essa segunda termine. Toca o celular. Deixo tocar. Ele pára. Volta a tocar. Atendo.

-Mano, perdemos.

Era um amigo com o quem desenvolvi um projetinho de um curta digital que foi bem até o momento final, quando perdemos. Sem filme, sem exibição, sem grana. O que mais faltava acontecer? Antes de voltar pra cama arrastando-me sobre as desilusões e infortúnios dessa segunda-absurda, quem encontro no meio do caminho?

Os brigadeiros.

Se poeta fosse diria em palavras ritmadas que no meio do caminho, havia um brigadeiro. Pedra é para Josés que não conhecem a moça que fez tais brigadeiros. Como dois, tomo um copo d’água e durmo sem escovar os dentes. O gosto do chocolate na boca é um suave elixir para o amargor de um dia terrível.

E eis que chega a terça-feira com o radio tocando a campanha eleitoral. Você sabia que o Tiririca é candidato a deputado federal? Pronto: já tenho mais um em quem não votar.

Pensei de pronto: começar o dia com uma notícia dessas é de doer… já vi que essa terça vai ser foda. Errei. Feio.

A empregada não me dá o balão e chega bem cedo. Pinta mais dois freelas. O estudo rende e eu acerto quase 85% de um simluado. A moça que me pediu desconto e disse “desse jeito não dá pra trabalhar contigo”, volta atrás e me pede desculpas. Diz que paga o combinado e que ontem estava cheia de problemas e acabou confundindo as coisas. Oferece-me mais um freela. O cara da informática me manda um e-mail dizendo que gostou muito do trabalho que o diretor de arte havia lhe enviado. Parabeniza-nos pelo resultado e diz que apesar do estresse, estava satisfeito. Tudo havia se resolvido bem. “Muito bem”, ele escreveu. Nasce a segunda filha de um amigo e nasce com saúde. Sua esposa está ótima e ele, fumando tudo que é charuto, felizão da vida. Diga-me, você que é mais esperta, se há felicidade mais pura e cristalina que a dos amigos? Caem dois depósitos em minha conta de freelas passados. Já dá pra trocar a Skoll pela Serra Malte. E ainda não chegamos ao meio do dia.

Enfim, chego ao que queria te dizer desde o início desse texto que de curto, tem uma meia dúzia de frases: minha amiga faz brigadeiros mágicos. E pensando bem, ela realmente se parece com uma fada.

Guardo o último brigadeiro no fundo da geladeira. Quero dar-lhe ao meu amigo que perdeu o pai. Mas pra dizer a verdade, eu também vou precisar de outros deles.

Quem não precisa?

Há ainda muitas segundas-feiras pela frente.

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