Numa aula, o professor, muito religioso, diz que Deus ajuda aos concurseiros de bom coração. Mas tem que estudar. O lance é ajudar o Homem a te ajudar, manja?
Quem estuda, Deus ajuda.
O segredo é rezar e estudar.
Rezar ajuda. Ajuda muito, segundo as palavras carregadas de sotaque do mestre nordestino. Mas eu não rezo.
Não sou ateu. Muito pelo contrário. Sou Politeísta. Pra mim, eles estão todos lá: Deus, Buda, Alá, Zeus, Tupã, Oxalá e outros manda chuvas celestiais. Um dia escreverei com calma sobre minhas teorias teológicas, mas não hoje. Hoje, falo de orações.
E falo com todo respeito. Respeito todas as religiões e seus devotos e a minha fé são todas.
Também tenho fé em mortais. Tipo Chico Buarque, Angus Young, Malu Mader, Riggs, Pita, Careca e Muller e John MacLane.
E o Ozzy?
O Ozzy é imortal. E vamos em frente.
Creio em todos esses entes supremos e não acho que Deus é um só.
Cada Um, cada Um.
Mas não é por que creio em todos que sou lá muito devoto.
Se a fé for ser medida por freqüência a cultos ou orações, estou mais pra pagão que peregrino. A última vez que fui a uma igreja foi no batizado de minha sobrinha.
Eu era o padrinho.
Também nunca fui bom em rezar.
Nunca.
Quando eu era criança, rezava. Mas aquelas orações nada me diziam. Ainda hoje não dizem. Então, não rezo.
Mas não é por isso que não tenho fé. Ou que não acredito. Acredito, sim Senhores.
Mas não rezo. E também não sou bom de pedir coisas.
Manja? Eu nada peço.
Não é orgulho nem arrogância. É pavor do incômodo.
Não quero amolar ninguém, entende?
Não pense que acho isso uma virtude. É um puta dum defeito, uma desvantagem absurda. Certa vez, Felix, o goleiro da Copa de 70, disse numa entrevista incrível que o futebol é uma parábola da vida e que, como nos gramados, quem se desloca recebe. E quem pede tem preferência.
E não é?
Eu saio de trás dos zagueiros e me antecipo à marcação mas cansei de perder gol por não pedir a bola.
Vai ver é timidez.
Vai ver é medo.
Vai ver é um monte de coisas que alguém pode explicar. Tipo o Freud. Mas aí o diabo vai dar uns toques e não é caso.
Ao menos não agora.
O fato é que nessas, nada peço aos Céus.
Mas isso não é de todo mal. Se não peço, também não faço promessas.
Minhas dívidas com o andar de cima estão zeradas.
Ao menos, a curto prazo.
Enfim, digo tudo isso porque esse lance de que Deus ajuda os concurseiros que rezam me deixou cabreiro. Cheguei a ensaiar umas orações, mas tudo foi muito estranho, meio falso, manja?
Eu continuo meio sem entender o que diz as orações. Eu as tenho decoradas há décadas, como artigos de lei ou fórmulas de estatística, mas não as entendo, como vários artigos legais ou fórmulas de estatística.
Mas orações não caem na prova. Ao menos não na minha.
E agora, José?
Agora é o seguinte: descolei uma aliada.
Ela não é onipresente, não fez da água o vinho, não atravessou desertos, não foi seguida por discípulos tampouco pensou em salvar a humanidade. Mas, além dela encher a vida dos meus de luz e alegria, ainda faz um pão com bife que deixaria Jerusalém de joelhos.
Trata-se de minha adorável mama.
Temos tudo planejado: ela reza, eu estudo.
Mas se porventura na prova eu marcar alternativa D de Deus e der B de Burro, mandarei os Céus ao inferno.

Ou aprenderei a rezar.